Linguagens e pensamento
Nelson da Silva Junior
Renata Udler Cromberg
Arte, dor: inquietudes entre estética e psicanálise
João Augusto Frayze-Perei
Silvana Rea
Sonhar, dormir e psicanalisar: viagens ao informe
Decio Gurfinkel
Cecilia Luiza Montag Hirchzon
Lançamentos
Orientação aos colaboradores
Editorial Leopold Nosek
Preparando as malas
O trabalho institucional pode ter correspondência com uma corrida de revezamento:
recebemos o bastão de quem nos precede, fazemos o melhor possível e, para o bom
desempenho, corremos um período junto com quem vai prosseguir com a tarefa e entregamos
o bastão. Esta equipe está com o encargo da Revista pouco mais de quatro anos.É um bom período. Uma equipe jovem tomou a si a tarefa – a maior parte de seus integrantes
sem experiência prévia em trabalho editorial – e podemos dizer que hoje sabe como
realizá-lo. Tomou a si o patrimônio herdado de Durval Marcondes que fez um número
em 1928, enviou o resultado de seus esforços a Sigmund Freud que a comemorou em carta
que recordamos a cada edição. É uma forma de significar não só a nossa origem como a
fidelidade à nossa especificidade, ao nosso método, à nossa prática e à nossa teoria. Retomada
sua edição em 1967 pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, foi doada à Associação Brasileira de Psicanálise (federação das sociedades brasileiras) com o acordo
de que o editor se mantivesse indicado pela sociedade paulista. O sotaque paulista causava
mal-estar e na reforma dos estatutos de 1992 quando se finalizou com o sistema de rodízio
das diretorias e se instituiu diretorias plurissocietárias, assim fortalecendo sensivelmente
o caráter democrático da instituição, houve um acordo renovado em relação à Revista: a
editoria permaneceu em São Paulo e, como contraparte, teríamos a criação da sede da federação
no Rio de Janeiro, o que de fato ocorreu. Atualmente a Revista também tem sede
própria adquirida na gestão de Plínio Montagna. Recebemos, então, a herança de muitos
editores.
Para citar apenas os mais recentes a partir de 1986: David Léo Leviski, Paulo Cesar
Sandler, Elias Mallet da Rocha Barros, Plinio Montagna e João França.
Deles recebemos um acervo e esperamos que seja dada sequência. O novo editor a
partir do volume 44, número 1, será Bernardo Tanis, a quem damos as boas-vindas. Estaremos
finalizando as edições que nos cabem este ano e abrindo espaço de trabalho conjunto
para que a equipe nova já possa iniciar os trabalhos do próximo ano, de modo que o
processo não sofra atraso em sua continuidade. Assim, os colaboradores para os números
futuros já podem se dirigir à nova editoria.
Não é o caso, neste momento, de trazer à tona os desenvolvimentos que alcançamos;
acreditamos ser mais útil apontarmos direções a serem atingidas e impasses não resolvidos
por nós. De certa forma não conseguimos retificar propriamente o sotaque paulista
da Revista. Obviamente, São Paulo possui uma sociedade muito grande e produtiva, além
de única em seu ambiente, mas isto não explica tudo. A distância dos editores regionais
deve ser diminuída e estes devem ser chamados a se comprometer mais com a Revista.
No último congresso brasileiro ficou acordado que teríamos edições temáticas propostas e
encaminhadas pelos editores regionais. Isto já está encaminhado, mas maturará no futuro.
Também foi definido que a Revista faria edições temáticas simultaneamente ao conjunto
das revistas regionais, de modo que o conjunto dos participantes da Febrapsi pudesse se
envolver em uma reflexão conjunta fortalecendo nosso caráter federativo.
Outra questão importante é a pontuação acadêmica da Revista. É uma questão
maior, pois os autores se preocupam com a repercussão de seus trabalhos e o acesso às
verbas distribuídas é definido por estes padrões. Sempre nos batemos com a incompreensão
dos avaliadores acerca de nossa especificidade enquanto disciplina científica e caímos
numa discussão infindável acerca de nosso método de pesquisa e da nossa formação fora
dos muros da academia. Tivemos que abrir mão de vários benefícios em função deste permanente
mal-entendido, pois optamos pela manutenção de nossos princípios. N o entanto,
assistimos nos últimos tempos uma sensibilidade renovada dos órgãos reguladores acerca
da nossa característica própria. Revistas das escolas de arte, artes plásticas, teatro, musica
etc. sofrem do mesmo problema nas universidades e já há um novo consenso em relação às suas publicações e formato de suas teses e pesquisas. N ossa luta pode então fazer valer
nosso pensamento e encontrar formas de acordo com esses organismos gestores. É uma
sequência necessária e que pode dar enorme força à nossa Revista, inclusive porque, como é fácil imaginar, sempre nos debatemos com uma falta crônica de verbas. Assim, trabalhos
de tradução, edição e revisão que poderiam e deveriam ser profissionalizados, são feitos de
forma amadora e dependente da enorme boa vontade da equipe, retirando sua energia de
tarefas mais específicas que poderia estar realizando.
Outro desenvolvimento necessário é o de incrementar a instância crítica e de ajuda
aos autores na elaboração de seus artigos. Se, por um lado, fazemos frente às nossas dificuldades
enquanto equipe, vale notar que não temos a maturidade de fazer face a estes processos
que são, na maior parte das vezes, vistos como intrusão e crítica injustificadas.
Enfim, neste trabalho de desenvolvimento de nossa ciência e implementação do
caráter federativo de nossa instituição, e chegado o momento de passar o bastão, esperamos
que as realizações que alcançamos e o resultado dos esforços de uma equipe dedicada e
apaixonada pelo desafio que lhe foi proposto, também tenham sido notadas e apreciadas.
Sentimos-nos recompensados, de antemão, pois a tarefa foi em si gratificadora inclusive
pelos desenvolvimentos que cada um dos membros da equipe, tenho certeza, pôde
alcançar.
Em que nos toca a neurociência? Comentário à entrevista de
Fúlvio Scorza Leila Tannous Guimarães, Campo Grande
Resumo: Este texto é um comentário da entrevista concedida pelo Prof. Fúlvio Scorza à Revista Brasileira
de Psicanálise. Visando a interface da neurociência com a psicanálise, o comentário destacou a relação
entre neuroplasticidade e memória, corpo/mente, utilização combinada de drogas e psicoterapias e, por
fim, a relação entre o consumo de drogas (álcool e cocaína), além do stress, como fatores lesivos aos
neurônios e impeditivos da neurogênese. Palavras-chave: neurociência; psicanálise; memória; neuroplasticidade.
Em que nos toca a neurociência?
Comentário à entrevista de
Fúlvio Scorza
Plinio Montagna, São Paulo
Yusaku Soussumi, São Paulo
Resumo: Os autores apresentam ideias sobre a possível integração e cooperação entre a psicanálise e
as neurociências, apontando fatores favoráveis e as resistências de profissionais de ambas as áreas para
um diálogo mais frutífero.
Mostram, através da entrevista de Fúlvio Scorza, da experiência psicanalítica e de pesquisas e leituras
na área da neurociência, exemplos de elementos úteis, os quais confirmam a propriedade da cooperação,
que pode ser muito útil a todos. Palavras-chave: processo psicanalítico; neurociências; neuropsicanálise; memória; resistências; diálogo
interdisciplinar.
Especificidade no processo de
elaboração do luto na adolescência
Bernardo Tanis, São Paulo
Resumo: Propomos neste trabalho, a partir da nossa experiência clínica, a hipótese da existência de
certas particularidades na elaboração das perdas na adolescência; especificamente abordamos o penoso
processo de luto pela morte do pai. Os processos identificatórios, as questões inerentes à sexualidade
e identidade de gênero, assim como os conflitos inerentes à constelação edípica adquirem singular
intensidade nesse período da vida.
Consideramos importante abordar essas questões pelo esclarecimento que podem trazer para a tarefa
clínica com esses analisandos e pelo enriquecimento da nossa compreensão metapsicológica da constituição
do psiquismo do adolescente.
Ampliamos a compreensão do lugar psíquico dos processos temporais, identificatórios e de simbolização,
assim como o impacto dos mesmos na vida adulta. Palavras-chave: adolescência; morte do pai; elaboração do luto; identificação.
O sistema mental determinante da inveja
Walter Trinca, São Paulo
Resumo: A inveja, como um fato clínico, é originária da intensificação do ódio, sendo mobilizada pela
pulsão de morte voltada contra o próprio sujeito invejoso. O ódio tem como consequência o distanciamento
de contato do invejoso com seu próprio ser. Uma situação que levaria ao esvaziamento do self,
caso não surgisse a inveja como medida compensatória ao esvaziamento, sob a forma de sensorialidade.
Trata-se da sensorialidade do ódio dirigido ao que evoca as insuficiências do invejoso, tendo em vista remover a fonte de seus sofrimentos. O ódio ao beneficiário do que é esejado substitui o ódio do invejoso
contra si próprio. Tal sensorialidade tem por finalidade manter algo a respeito da validade e da
bondade do sujeito invejoso. O autor considera que desse modo não é necessário alterar os elementos
básicos da concepção kleiniana clássica de inveja. Palavras-chave: psicanálise contemporânea; teoria psicanalítica; sensorialidade; sistemas mentais; inveja.
Intersubjetividade e especificidade em psicanálise
Adalberto A. Goulart, Aracaju
Resumo: Partindo do conceito de Pulsão em Freud, o autor tece considerações sobre a importância
da função materna e sua interação com o bebê como base fundamental para a construção da nova
personalidade. Desenvolve o tema chegando à relação analítica e discute a importância da presença da
personalidade total do analista na sessão, inclusive enquanto pessoa real, tanto quanto a do paciente,
interagindo e interferindo no processo, apesar da neutralidade técnica buscada. O conceito de intersubjetividade é destacado como sendo a fantasia da dupla no campo analítico, construída pelo encontro
das subjetividades de ambos os componentes, que serão resgatadas posteriormente, nas suas diferenças,
tendo sido enriquecidas pelo encontro intersubjetivo. Destaca a importância de certa dose de coragem
e ousadia que o analista precisa ter para que possa fazer uso da matéria-prima que emerge no campo
intersubjetivo, sempre amparado por uma sólida formação psicanalítica, por seus estudos e especialmente
por uma experiência de análise pessoal satisfatória. Sugere que o trabalho analítico consiste em
construir novos significados e que, trabalhando no espaço intersubjetivo, a dupla analítica se torna mais
integrada, mais viva, mais criativa e, especialmente, mais verdadeira. Palavras-chave: Trieb; papel materno; intersubjetividade; diálogo psicanalítico; psicanálise
Uma aproximação ao mundo dos conteúdos
oníricos e a cesura
Edival Antonio Lessnau Perrini, Curitiba
Resumo: O autor apresenta relatos clínicos, pessoais, e retirados da literatura para pensar experiências
emocionais ligadas ao que Bion denominou, em 1977, de Cesura.
Mostra que, na vivência da Cesura, partes dos protopensamentos e dos conteúdos oníricos da mente
podem deixar sua forma potencial e indiscriminada para serem realizadas psiquicamente.
Enfatiza também que "trabalhar na Cesura", peculiaridade do método psicanalítico, é trabalhar com
movimentos paradoxais que apontam para mudanças súbitas e inesperadas de estados mentais. E que
suportá-las, na clínica e no cotidiano, em seu vazio imediato de significação, e contê-las, é o que pode
possibilitar estas realizações. Palavras-chave: cesura; experiência emocional; conteúdos oníricos; estados da mente.
A questão da Psicanálise em Fabio Herrmann
Crise em crise?
Leda Herrmann, São Paulo
Resumo: O artigo expõe a ideia de Fabio Herrmann sobre a história da psicanálise como resistência à Psicanálise. Atribui a crise atual da Psicanálise à sua redução, depois de Freud, à clínica padrão de
consultório, sustentada por uma teoria padrão. Palavras-chave: Fabio Herrmann; Teoria dos Campos; clínica padrão; alta teoria.
Deep Fritz versus Sigmund Freud:
a luta do século Juarez Guedes Cruz, Porto Alegre
Resumo: O autor examina alguns dos desafios feitos à psicanálise na atualidade. Parte da premissa
de que, apesar das enormes diferenças entre a cultura da Viena do início do século XX e a sociedade
tecnológica dos dias de hoje, é fundamental que o psicanalista mantenha-se atento às invariâncias do
mundo interno, seu único e privilegiado foco no trabalho clínico. Detalha tal postura, caracterizada
pela preservação do setting e pela atenção centrada no campo intersubjetivo criado pela relação com
seu paciente. Palavras-chave: psicanálise e cultura; pós-modernidade; psicanálise e tecnologia.
A psicanálise como atividade
Desafios e resistências
Ney Marinho, Rio de Janeiro
Maria Thereza de Barros França, São Paulo
Resumo: O autor procura responder ao questionamento sobre o que seria específico e/ou revolucionário
na psicanálise e o campo de resistências que ela geraria no presente. Parte de um vértice: o da
psicanálise como uma atividade e, a partir deste ângulo, desenvolve sua resposta em três seções. A
primeira discute a especificidade da epistemologia psicanalítica. A segunda, a radicalidade da clínica
psicanalítica, tomando como referência um texto de Michael Brearley. A terceira é dedicada às resistências
internas (a partir do próprio movimento psicanalítico) e externas (a partir da cultura). Finaliza
desenvolvendo as epígrafes que abrem o trabalho e pretendem resumi-lo. Palavras-chave: psicanálise; atividade; epistemologia; forma de vida; resistência; Michael Brearley;
Wittgenstein; Bion.
A compulsão nossa de cada dia
Miguel Calmon du Pin e Almeida, Rio de Janeiro
Resumo: O autor parte de suas experiências pessoais as mais mínimas para tentar estabelecer os pontos
onde as compulsões se apoiam: pequenas marcas identificatórias, pequenas experiências que vão modelando
os modos de ser e existir de cada um de nós. N esta direção, enfatiza o papel e a função do meio
ambiente nos processos que resultam na capacidade de representar psiquicamente. Palavras-chave: Parar de fumar; marcas identificatórias; compulsão e meio ambiente.
A "Via Sacra" do filicídio no processo analítico Giovana Borges, Porto Alegre
Ignácio A. Paim Filho, Porto Alegre
Resumo: Os autores se propõem a repensar a vigência do pensamento freudiano a respeito da importância
do inconsciente do analista e, por conseguinte, sua análise pessoal no processo analítico. Diante
dessa premissa, focalizam as consequências tanáticas no exercício de sua função, quando não se dá por
parte do analista a aquisição de uma "determinada condição psicológica em alto grau". Tomam como
escopo o acontecer simbólico do filicídio. Postulam que o destino de toda a transferência que seja perpetuada
pelo repúdio ao feminino do analista determinará o assassinato da autonomia do analisando.
Assim sendo, ratificam o caráter interminável de toda a análise e a importância de que cada analista não
viva, somente, como uma injúria narcísica o seu desejo e/ou a necessidade de voltar ao divã. Palavras-chave: transferência; repúdio ao feminino; filicídio; narcisismo.
A clínica psicanalítica atual:
obsessão, compulsão, fobia e pânico Theodor Lowenkron, Rio de Janeiro
Resumo: O trabalho apresenta o conceito de compulsão e busca abordar as manifestações de obsessão,
compulsão, fobia e pânico enquanto categorias diagnósticas. Aponta que a psicanálise e a psicoterapia
psicanalítica são abordagens terapêuticas eficazes nessas categorias diagnósticas. Palavras-chave: compulsão; pânico; fobia; obsessão; psicanálise; psicoterapia psicanalítica.
Consciência moral primitiva:
um vislumbre da mente primordial José Américo Junqueira de Mattos, Ribeirão Preto
João Carlos Braga, Curitiba
Resumo: Estudando mais de uma centena de supervisões dadas por Bion no Brasil, um dos presentes
autores (JAJM) identificou referências, nas supervisões de 1978, a uma configuração psíquica, coloquialmente
nomeada por Bion de consciência moral primitiva (primitive conscience). Em um rastreamento,
foi possível identificar esta ideia também em outros artigos e seminários dessa época, como parte do
modelo de mente utilizado por Bion em seus últimos anos de vida (1976-1979). São ideias sobre uma
mente primordial, desenvolvida antes do nascimento, que parece se manter inalterada e ativa após este.
Com esta hipótese sobre os primórdios do psíquico, Bion chama a atenção para registros associados a órgãos atuantes precocemente no funcionamento somático (tálamo e adrenais), antes da disponibilidade
do córtex cerebral para registros com potencialidade para representações.
Neste contexto, Bion conjectura que sentimentos de culpa muito primitivos, capazes de desencadear
sanções cruéis, a ponto de serem mortais, apontariam a existência de uma moralidade primordial, que
se manifesta impondo proibições, sem considerar a experiência para indicar escolhas. Desta maneira,
impede experiências emocionais potencialmente criativas. Termos como terror sem nome e medo
subtalâmico foram utilizados tentativamente por Bion, em outros momentos, para aproximar esta condição. Palavras-chave: Consciência; superego; superego arcaico; mente primordial; Bion.
Místico, conhecimento e trauma
César Botella e Sara Botella, Paris
Resumo: A última parte da obra de Bion se orienta, parece-nos, para preocupações mais místicas. Mas
não se trata nem de um retorno ao passado nem de uma regressão. Muito ao contrário, estes trabalhos
estão no nível dos trabalhos mais instigantes e desconcertantes de Freud, como "O futuro de uma ilusão" e "Moisés e o monoteísmo". Bion vai submeter ao crivo da psicanálise esta necessidade essencial do
homem, isto é, a necessidade de dar um sentido ao seu mundo. Palavras-chave: psicanálise; Bion; místico; conhecimento; trauma.
Sobre a ação terapêutica da psicanálise no século XXI
Marilia Aisenstein, Paris
Resumo: A fim de apoiar a ideia de que a psicanálise atualmente faz parte do processo de civilização, a
autora examina a noção de ação terapêutica da psicanálise à luz de importantes obras freudianas. Também
discute a contribuição de alguns pensadores seguidores de Freud, como Klein, Bion, Green, Lacan
e a influência deles. Ela considera que a psicanálise é um método único com condições de resistir aos
ataques contra o pensamento que precisamos enfrentar atualmente.
Palavras-chave: pulsão; pulsão de morte; libido; processo analítico; Kulturarbeiten; civilização; processo
de pensamento; trabalho interpretativo; transferência; perlaboração