A pessoa do analista: o novo/velho incômodo
José Carlos Calich, Alice Becker Lewkowicz, Carmem Emília Keidann,
Heloísa Cunha Tonetto, Magali Fischer, Regina Pereira Klarmann
A herança psíquica na clínica psicanalítica
Maria Cecília Pereira da Silva
Maria Lúcia Castilho Romera
195
Rediscovering Psychoanalysis. Thinking and Dreaming, Learning and Forgetting
Thomas H. Ogden
Maria Stela de Godoy Moreira
197
Lançamentos
203
Orientação aos colaboradores
205
Editorial
Leopold Nosek
Herdeiros que somos da obra de Freud, sempre nos movimentaremos em espaço
de dupla cidadania. Por um lado nos moveremos no interior de uma herança iluminista;
pretenderemos a construção de um conhecimento positivo que nos propicie um maior
domínio da natureza. Tenderemos a procurar a luz, a clareza que nos trará a confiança no
espírito humano e o orgulho de sermos racionais. Estaremos procurando a companhia
de nossos pares produtores de conhecimento, desejando seu reconhecimento apesar de,
inevitavelmente, sermos observados com desconfiança. Há, em nossa ciência, sempre algo
de incômodo. Ao mesmo tempo disruptiva e fascinante e, por que não dizer, muitas vezes
determinando ódios aparentemente incompreensíveis. Qual disciplina de conhecimento
produz tão abundante bibliografia contrária? N ão vemos isto acontecer com outros modos
de conhecimento.
Por outro lado, somos herdeiros de algo novo, resgatamos da esfera da superstição
e da magia a disciplina dos sonhos. Sobre este território nos debruçamos e dele surge este
peculiar objeto de escrutínio: o inconsciente. Acompanhado de seu cortejo: pulsões, sexualidade,
recalque, transferência e tantos outros, seu reino não será da claridade ou da luz.
Como dizia Freud a respeito dos sonhos “… eles desaparecem diante das impressões de
um novo dia como as estrelas diante da luz do sol”. São inúmeras as configurações técnicas
que propõem qualidades negativas para a prática da psicanálise. Freud, em seu livro sobre
parapraxias, dizia que o leitor deveria se aproximar de seus escritos munido de atenção
flutuante; em outro momento dizia que o leitor se comportaria como o neurótico, e que
inevitavelmente se aproximaria do texto com resistência.
Com o surgimento da psicanálise a tradição está posta em questão. N ão haverá área
do saber que não enfrentará desafios novos com a entrada em cena do desvendamento desse
território que é o inconsciente. Assim será com a filosofia, com a epistemologia, com a
crítica estética, a pedagogia e tantas outras. Com isto sua presença será inevitável no debate
contemporâneo, com o qual buscamos enfrentar os novos tempos. Ao mesmo tempo uma
terapia e uma visão do homem não poderão se furtar de intervir em ambos os campos.
Temos inúmeras questões para uma editoria.
Qual direção devemos privilegiar?
Devemos destacar seu caráter científico? Se assim for, com qual ideia de ciência trabalharemos?
Como focar a ideia nova acerca do conhecimento que a psicanálise propõe?
Se privilegiarmos a percepção e a realização dos conceitos, qual será o estilo dos
nossos escritos?
Eles deverão ter como modelo os escritos de outras ciências ou o modelo da forma
ensaio, como são os escritos de Freud?
Teremos lugar para breves reflexões e vinhetas clínicas, como são muitos dos escritos
de Ferenczi? Devemos participar das reflexões, das perplexidades e soluções que nossaépoca nos propõe?
Estas questões tornam-se ainda mais urgentes se, como é o nosso caso, muito teríamos
a ganhar com boas classificações das agências oficiais de regulação científica e de agentes
patrocinadores que nem sempre compreendem as especificidades de uma publicação psicanalítica. Deveremos nos submeter a esses critérios ou intervir junto a essas agências
de modo a nos fazer entender?
Além disso, nossa Revista tem um caráter institucional, pertence à FEBRAPSI e, portanto
terá que acolher as reivindicações do seu grupo como um todo. Aqui vale recordar
que a Revista foi doada à federação pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo
SBPSP, com a ressalva de manter o direito de apontar seu editor. Constatamos com isto
que, apesar de nossos esforços, permanece certo “sotaque” paulista. Com a finalidade de
aprimorar seu caráter federado estamos organizando números temáticos com editoria dos
colegas editores associados pertencentes a outras sociedades. Esta foi uma resolução aprovada
em reunião do último Congresso Brasileiro. Já estão encaminhadas propostas dos
colegas Miguel Calmon du Pin e Almeida da SBPRJ e Gley Silva de Pacheco da SBPdePA.
Insistimos que outros editores regionais também participem.
Temos ensaiado propostas provisórias que estão no corpo da Revista, mas muito teremos
a ganhar com sugestões de nossos leitores, autores e sociedades federadas, pois estes
são a razão de ser desta Revista.
Comentário à entrevista deBoris Schnaiderman
Gley Pacheco Costa, Porto Alegre
Resumo: O autor, a partir de uma referência histórica e de fragmentos da entrevista com o físico José
Goldemberg à Revista Brasileira de Psicanálise, tece alguns comentários a propósito da teoria pulsional
de Freud, com ênfase nas pulsões de ver e saber, concluindo com uma observação a respeito do trabalho
de preservação da vida desenvolvido pelo entrevistado. Palavras-chave: pulsões; pulsão de saber; pulsão de ver; guerra nuclear; sobrevivência.
Comentário à entrevista de José Goldemberg Zelig Libermann, Porto Alegre
Resumo: Na entrevista realizada, o professor José Goldemberg relata muitas de suas vivências e de sua
participação em momentos importantes da história do país. Dentre esses relatos, o autor destaca depoimentos
do professor Goldemberg sobre sua vida estudantil, com o objetivo de analisar, de forma sucinta,
algumas características psíquicas presentes na relação professor-aluno na atualidade. Ao propor
essa temática, busca-se ressaltar a importância da relação afetiva, do vínculo entre mestres e estudantes
como facilitadores da introjeção de modelos de identificação. Palavras-chave: psicanálise; desenvolvimento psíquico; representação; defesas narcisistas; vínculo.
Turbulência e crescimento:
um encontro entre Ismália e Isaura
Gisèle de Mattos Brito, Belo Horizonte
Resumo: Este é um trabalho clínico que fala de um encontro vivo entre a “loucura” e a “sanidade”, ou
melhor, entre a parte psicótica e não psicótica de nossa personalidade (Bion, 1957). Entre a busca de
conhecer (K) e do não conhecer (-K) como apresentadas por Bion (1962, 1963) e sua extensão para as
transformações de K–>O (Bion, 1965). São apresentados vários fragmentos de diferentes momentos da
análise, em que é possível verificarmos como paciente e analista vão tecendo um continente para conter
o objeto analítico.
A loucura/Ismália, ou seja, as atuações decorrentes de uma tentativa de fuga da dor mental e sentimentos
de responsabilidade, assim como a criação de um mundo alucinatório, ganham expressão verbal na
relação analítica. Por outro lado, a sanidade/Isaura, entendido como o contato lúcido com self e objeto é
também revelado e expresso. Palavras-chave: loucura, sanidade, parte psicótica e não psicótica, crescimento, turbulência, transformações
em alucinose, conhecer e não conhecer.
Frida Kahlo:
a pintura como processo de busca de si mesmo
Gina Khafif Levinzon, São Paulo
Resumo: A partir do estudo da vida e da obra da pintora Frida Kahlo, este trabalho propõe reflexões
sobre a natureza das forças que impeliam a artista a retratar seus estados emocionais de forma pungente.
As falhas na maternagem e suas consequências são examinadas na relação que Frida tinha com seu
corpo, seus relacionamentos afetivos e sua feminilidade.
Seus autorretratos criavam uma função especular restituidora, e sua arte denotava um intenso processo
de busca de integração e de encontro consigo mesma. Palavras-chave: Frida Kahlo; a arte como cura; compulsão; espelho.
A pessoa do analista: o novo/velho incômodo
Reflexões a partir da “Teoria da sedução generalizada”,
de Jean Laplanche
José Carlos Calich, Alice Becker Lewkowicz, Carmem Emília Keidann, Heloísa
Cunha Tonetto, Magali Fischer, Regina Pereira Klarmann, Porto Alegre
Resumo: Os autores propõem uma reflexão sobre a situação de análise, valendo-se do pensamento
de Laplanche a respeito da “Teoria da sedução generalizada”. N esta, a neutralidade é vista como um
conceito a ser revisado, considerando o papel fudamental do recusamento do analista frente a suas próprias
demandas e às do paciente, como um instrumento técnico que possibilita o trabalho de tradução
das mensagens enigmáticas. Reconhecem a complexidade do tema, uma vez que o analista se vê imerso
em suas mensagens enigmáticas que ele também não traduziu e interferem em seu trabalho. Apresentam
um material clínico que ilustra o questionamento da transferência em pleno e em oco, sendo esta
a possibilidade de abrir o inusitado, ainda não pensado e por isto levar a uma situação de incômodo
ao analista, concomitante ao favorecimento de novas traduções que contribuem para a expansão do
inconsciente e o crescimento psíquico. Palavras chaves: recusamento; transferência; pessoa do analista; situação de análise; neutralidade.
O Pequeno Hans discutido e sentido entre o passado e
presente
Celso Gutfreind, Porto Alegre
Resumo: Neste trabalho, o autor se propõe a revisar a discussão de Freud em seu clássico caso do Pequeno
Hans. O objetivo é revisar as principais ideias de Freud, refletindo sobre o que conservam de atual
no modelo psicanalítico de atendimento a crianças. Depois de um percurso reflexivo nesse sentido, a
conclusão é de que Freud, com o Pequeno Hans, abriu espaço para a compreensão do mundo infantil e,
descontadas algumas diferenças técnicas, muitas de suas ideias seguem atuais e consistentes. Palavras-chave: pequeno Hans; psicanálise; psicanálise infantil; história da psicanálise.
O que representa representação?
Josênia Maria Heck Munhoz, Porto Alegre
Resumo: A autora busca compreender o conceito de representação na obra de Freud, buscando também
o auxílio de outros autores como Green, Hanns, Garcia-Rosa, Laplanche & Pontalis e Valls. Entendese
que representação é um conceito complexo e extremamente articulado, que une no interior de sua
definição, a pura metapsicologia freudiana relacionada com as pulsões e os afetos. Assim, representação
representa um fenômeno, cuja função está ligada à estruturação do aparelho psíquico e da mente, tanto
inconsciente como consciente, abarcando os três pontos de vista da teoria psicanalítica: o topográfico,
o econômico e o dinâmico. Palavras-chave: Representação; pulsão; aparelho psíquico.
Transformações em sonho e
personagens no campo analítico
Antonino Ferro, Pavia
Resumo: Partindo da clínica e da técnica, o autor mostra o curso de uma análise focado nos conteúdos
para uma análise interessada essencialmente no desenvolvimento dos instrumentos para sonhar, sentir
e pensar. A transformação em sonho da comunicação do paciente assim como o desenvolvimento da
capacidade de consonância são considerados essenciais para tal desenvolvimento. Palavras-chave: personagem; modelo; campo psicanalítico; transformações, transformações em
sonhos.
Apreender a prática dos psicanalistas
em seus próprios méritos
Juan Pablo Jiménez, Santiago
Resumo: Não se pode estudar as convergências e divergências, na clínica psicanalítica, sem se saber o
que os psicanalistas realmente fazem em sua prática. É esboçada uma fenomenologia da prática clínica
e dos processos de validação das intervenções; são propostas metodologias para estudar a prática em
seus próprios méritos. Palavras-chave: pluralismo, validação clínica, fenomenologia psicanalítica, prática psicanalítica.
Problemas do aprendizado na comunidade
psicanalítica: narcisismo e curiosidade
Warren S. Poland, Washington
Resumo: Apesar da sensibilidade para ouvir pacientes, analistas não obtiveram bom desempenho ao
ouvir e falar com colegas de maneira realmente aberta. Fatores importantes são destacados nesta interação
entre forças direcionadas do narcisismo em si próprio e forças externalizadas de curiosidade.
Algumas limitações de comunicação inerentes à mente humana foram incluídos no exame de problemas
de comunicação entre colegas de profissão. Limitações como a necessidade de abstrair aspectos
da experiência para focar atenção e a tendência mental de pensar por categorias. Outras limitações são
derivadas da psicologia individual (como a vulnerabilidade da autoestima) e aquelas relacionadas a dinâmicas
de grupo (como a adaptação às novas ideias e os problemas que elas causam, paroquialismo e
o desenvolvimento de escolas radicais e a competitividade entre as escolas). A contribuição das influências
culturais e da multiplicação do uso de determinada linguagem também foi ressaltada. O sentido
principal da pequenez na estranheza do universo e a presença de outros em uma corrente natural. Palavras-chave: comunicação entre colegas de profissão; curiosidade; pensamento dualístico; insularidade;
narcisismo; ideias abertas; paroquialismo; problemas de linguagem; escolas radicais; aprendizado
recíproco; competição científica; estranheza da alteridade.
O infinito e o corpo:
notas para uma teoria da genitalidade
Leopold Nosek, São Paulo
Resumo: Depois de uma cirurgia em que extrai o útero, os ovários e as trompas, uma paciente se questiona:
para onde vão os produtos do sexo, agora que sua vagina se tornou um “saco de fundo cego”?
A pergunta leva o autor a rever o conceito de genitalidade e a propor uma nova articulação entre a
singularidade absoluta de cada gesto psicanalítico e a universalidade do que ele chama “anseio metapsicológico”.
A argumentação se apoia na noção de infinito pensada por Levinas: o infinito é um peculiar
objeto de investigação, pois, se puder ser abarcado por um conceito, deixa de existir. A alteridade
radical do inconsciente impõe a analogia: também ele traumatiza seu conceito. Com essa equiparação,
a teoria e a clínica psicanalíticas são vinculadas a uma ética derivada não do conhecimento positivo,
mas da recepção do outro em seu direito próprio – torno-me refém do infinito, permito que o outro
me traumatize. Configura-se aí uma noção de conhecimento em que a ética precede a ontologia. A
construção de sentido se dará na conjunção entre a atenção flutuante – essa permanente disposição
ao traumatismo – e a associação livre – uma disposição a ser como não se pode ser em nenhum outro
lugar. Enquanto busco apreender a alteridade, ela busca ser apreendida por mim e em mim; ela busca
em mim o conceito de si. Isso corresponde à realização da ideia de infinito no finito. Podemos chamá-la
de desejo – um desejo que se atira no infinito percorrendo o trajeto do trauma, o caminho sem passado,
sem memória. A construção de sentido estará aqui sob a égide do genital, o único modo da sexualidade
em que o desejo não abarca a alteridade. Palavras-chave: clínica; construção de sentido; ética; genitalidade; infinito; metapsicologia; trauma.
Pulsão, com pulsão, compulsão
Cláudio Laks Eizirik, Porto Alegre
Resumo: O autor revisa os conceitos de pulsão e de compulsão à repetição, e examina de uma perspectiva
metapsicológica, de uma perspectiva clínica e de uma perspectiva institucional as possibilidades
do predomínio da compulsão à repetição ou dos movimentos com pulsão. Destaca, nos três âmbitos, o
contraste entre as tendências a uma repetição monótona e compulsória e os movimentos renovadores
e criativos que podem contribuir para a vitalidade da psicanálise. Palavras chave: pulsão; compulsão à repetição; psicanálise contemporânea.
Enactment: modelo para
pensar o processo psicanalítico
Nelson José Nazaré Rocha, Campinas
Resumo: A partir de uma breve revisão bibliográfica, o autor inicia o artigo descrevendo e discutindo
o conceito de enactment, e a maneira como ele define este e outros termos.
Seguindo a diferenciação proposta por Jacobs entre enactments abertos e fechados, o autor apresenta
um curto exemplo clínico do primeiro e uma situação clínica mais complexa para ilustrar o segundo
tipo.
Em seguida, usando a última ilustração, o autor examina a importância do conceito na sua aplicação
clínica, discutindo ainda a sua validade como um instrumento para a compreensão e para o trabalho
com os fenômenos clínicos, e em suas diferenças relacionadas aos conceitos de acting out e identificação
e contraidentificação projetivas.
O autor conclui, defendendo o uso desse conceito como um modelo – no sentido em que foi usado por
Bion: como um instrumento para pensar, que deve ser abandonado após o uso – para auxiliar a descrever
e a pensar sobre a situação analítica. Palavras-chave: enactment; acting out; identificação projetiva; contraidentificação projetiva; adolescente
borderline.
A civilização do mal-estar
pela não-felicidade
Odilon de Mello Franco Filho, São Paulo
Resumo: O tema deste trabalho é a Felicidade. Tema abordado diretamente por Freud, mas que, na atualidade,
parece ter desaparecido da literatura psicanalítica e das preocupações dos pensadores em geral.
A questão da Felicidade tem correspondido a noções diferentes através dos tempos e reflete a cultura
vigente em cada época. O presente trabalho é iniciado com um rastreamento das várias visões que a
cultura nos tem legado sobre o tema, da Grécia antiga até os nossos tempos. N a contemporaneidade, a
ideia de Felicidade é marcada por noções hedonistas que consideram que o desconforto, o sofrimento,
devem ser banidos em nome de uma Felicidade a ser alcançada a qualquer preço. Sofremos porque não
conseguimos ser felizes de acordo com o que se propaga ser a verdadeira felicidade. O que antes era um
projeto do Id, hoje se torna um projeto do Superego. Como decorrência, surgem esforços para engajar
a psicanálise na luta pela ausência do sofrimento. Uma proposta hedonista de trabalho se oferece como
desafio para o método psicanalítico. Corre-se, então, o risco de desnaturar a psicanálise e transformá-la
num objeto de consumo para alcançar uma Felicidade utópica baseada na analgesia. Palavras-chave: felicidade; psicanálise e cultura; hedonismo; contemporaneidade; cura.