Editorial
Leopold Nosek
Um projeto: a busca da excelência
Quero reafirmar a importância que a política editorial da Revista Brasileira de Psicanálise tem dado ao debate com outras disciplinas do saber acerca do humano. Assim, comemoramos a oportunidade de dialogar com o eminente professor de história Fernando Novais. Temos considerado que ocorre um reposicionamento em todos os campos do conhecimento, fruto de mudanças fundamentais em nossa realidade cotidiana. Como nos diz também Novais, a partir dos anos 80 há um reposicionamento do que seria ciência e uma rediscussão acerca de seu papel como modelo de conhecimento.
Os paradigmas entram em crise – e não é diferente em nosso campo. Nosso orgulhoso isolamento de décadas não pode mais subsistir. Estamos mergulhados em nossa prática, em meios específicos que nos questionam, propõem perguntas e exigem respostas e posicionamentos. Temos apenas uma pequena faixa no saber do humano submetido à nossa interrogação, e nossos impasses e avanços têm paralelo com outros campos que muitas vezes já maturaram reflexões das quais podemos nos beneficiar.
É, pois, um privilégio acolher em nossas páginas colegas que se dispõem ao diálogo conosco. É um desafio interessantíssimo, ouvir do melhor da academia que a história não é uma ciência, mas que é preciso ter cuidado sobre onde dizer isso, pois se necessitam de verbas de instituições oficiais. Trafegar por onde necessário for – mas sem sacrificar os princípios, sem uma acomodação oportunista aos tempos, sem uma rendição ao que pede o mercado científico.
Vemos também, na entrevista de Fernando Novais, como não é monopólio da ciência o rigor da definição do objeto e do método de sua abordagem. Nós, psicanalistas, temos sofrido uma pressão institucional enorme para uma nova rendição aos métodos e paradigmas do empirismo e do positivismo. Não temos comemorado devidamente a crise de paradigmas que se instituiu por toda parte nos últimos anos.
Que oportunidade enorme é a crise. Que espaço enorme se abre com o abismo de certezas. Se não quisermos rapidamente obturar o vazio deixado pelo desmoronamento de modelos e preenchê-lo rapidamente com afirmativas apressadas, se não nos rendermos rapidamente às exigências do mercado, nosso pensamento encontrará seu espaço próprio. Mais uma vez, como nos primórdios de nossa disciplina, acreditamos que também devemos mostrar nossa eficácia em trazer bem-estar, tal como apregoam os laboratórios. Queremos mostrar que vemos Deus tão bem quanto reivindicam nossos colegas das neurociências. Queremos sua glória e seu sucesso. Acabaremos, por essa rendição, abandonando nossa maior herança, que é o pensamento metapsicológico, em favor de uma psicologia empírica dita “de base psicanalítica” e de uma prática psicoterápica “competitiva”.
Mas competitivos em relação a quem e para quê? Esquecemos que é por nosso método que ocorre o nosso maior êxito: sem querermos ser terapêuticos, atingimos paradoxalmente a nossa maior potência. Nosso método, a partir da definição de nosso objeto – o inconsciente –, propõe uma abstenção de intencionalidades que nos leva a este único e original método da atenção flutuante e da livre associação. Nada seremos se abandonarmos nosso objeto e nosso método.
Não precisamos ter o expediente de historiadores, mas, aproveitando seus questionamentos, os colegas Marcio Giovannetti e Ruggero Levy nos trazem reflexões próprias de nossa área, mostrando a fertilidade que pode haver nesse diálogo. Entre outras questões, posicionarmo-nos diante da escolha entre a ciência e a metapsicologia é vital. Refletir acerca de nossa prática, nossa teoria, nosso método e nossa especificidade se apresenta como essencial, nestes tempos em que as respostas buscam procedimentos e sucessos imediatos.
Orgulhamo-nos dos nossos autores. As reflexões que percorrem este número mostram a maturidade de uma comunidade que se questiona, que tem uma riqueza de hipóteses e confia na discussão entre seus pares. A tarefa de uma revista é encorajar a autoria e a educação da recepção do leitor. Se somos um grupo que atingiu a maturidade, muito há que fazer ainda para que a rbp atinja um grau de excelência entre seus pares. Dependemos de agências de avaliação, agentes patrocinadores, leitores de outras disciplinas, acesso a bibliotecas etc. Necessitamos de verbas e reconhecimento amplo. Como fazê-lo sem desnaturar nossa natureza, sem abrir mão de nossa identidade?
Recusamos o caminho fácil de simplesmente nos adaptarmos. Contudo, se o que não queremos fazer é relativamente simples, respostas afirmativas ainda estão por maturar. Necessitamos um amplo debate em nossa comunidade, para que nós, como grupo, possamos fazer novas escolhas. Nesses termos, a Federação Brasileira de Psicanálise e as sociedades federadas terão de estar mais próximas da Revista e participar das decisões. Contamos também com os leitores e esperamos que nos enviem cartas-artigos, sugestões e críticas. Assim, convidamos a todos para que nos acompanhem neste novo trecho do nosso trajeto, que terá de ser um salto a mais na busca de excelência da nossa rbp.
L. N.
SP, agosto de 2008
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História e/em psicanálise? E qual é o papel do historiador/psicanalista ou da dupla analítica nesta construção?
[Comentário à entrevista de Fernando Novais]
Ruggero Levy
Resumo: O autor, a partir da entrevista do prof. Fernando Novais à Revista Brasileira de Psicanálise, tece livremente alguns comentários. Centra-se principalmente em compreender como foi e como é vista a questão da história passada do sujeito na psicanálise. Diferencia uma posição inicial da psicanálise de tentar reconstruir a história factual do sujeito, com uma postura mais contemporânea de aceitar que se constrói uma história possível numa tarefa conjunta da dupla analítica.
Palavras-chave: construção em análise; reconstrução; psicanálise e história.
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“Sem memória não existe gente, existe?”
Comentário à entrevista de Fernando Novais
Marcio de Freitas Giovannetti
Resumo: O autor faz aproximações entre as idéias trazidas por Fernando Novais e alguns conceitos freudianos, como o de a posteriori. Ressalta também a importância do pensamento livre e libertário tanto para o historiador quanto para o psicanalista.
Palavras-chave: memória; anacronismo; a posteriori.
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Freie Einfälle: a irrupção verbal do desconhecido
Paulo Cesar Sandler
Resumo: O autor propõe uma análise do conceito de freie Einfälle (associações livres), conjugando a experiência clínica com uma descrição do campo semântico da expressão verbal na língua alemã. As duas permitem alcançar: 1) o paradoxo envolvido na formulação verbal de Freud; 2) a noção de determinismo psíquico como fenômeno originalmente probabilístico, determinando a forma verbal das freie Einfälle – e preciso, único, em sua indicação do fato inconsciente que o gerou: 1) de uma associação que não é racional nem tampouco de idéias expressas pelo paciente, mas se constitui no livre trânsito consciente/inconsciente; 2) de uma associação entre um estado de mente livre que possa intuir o âmbito numênico, vinculando paciente e analista; 3) de um sentido mais próximo ao de “tornar-se” e “estar uno consigo mesmo”, correspondente ao termo romântico alemão einfuhlung. O artigo é também um convite para uma conversa com estudiosos versados na riquíssima língua alemã, capacitados a avaliar a tentativa de um analista leigo nesta língua, porém interessado nela.
Palavras-chave: psicanálise; associações livres; tornar-se; estar uno a si mesmo; movimento romântico alemão.
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Suspensão corporal e as três dimensões da intercorporeidade
Daniel Rodrigues Lirio
Resumo: Este artigo focaliza a suspensão corporal, que consiste na elevação de uma pessoa por meio de ganchos cravados em sua pele. Essa prática é um fenômeno tipicamente contemporâneo e, facilitada pela internet, tem-se difundido intensamente no mundo ocidental. Para compreendê-la, utilizamos uma escuta psicanalítica para ressaltar a dinâmica da relação entre as personagens típicas de um evento de suspensão: a pessoa suspendida, a pessoa que suspende e a platéia. Pretendemos, então, enfocar o caráter intersubjetivo dessa intervenção corporal e, para tanto, utilizamos a noção de intercorporeidade. O seu desenvolvimento inspira-se em instrumentos já utilizados para pensar a intersubjetividade: a condição fusional mãe-bebê, a empatia, o voyeurismo, a relação especular e a mediação simbólica.
Palavras-chave: alteridade; corpo; pós-modernidade; dor; intercorporeidade.
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No resgate da alma
Inês Zulema Sucar
Resumo: Utilizar referências da antropologia, da arte, da literatura, acrescidas de breves menções da clínica de adultos, são artifícios de aproximação e distanciamento para observar situações de abusos sexuais vivenciados na infância e na adolescência em relações familiares. Conhecido desde Freud como “assassinato da alma”, o tema é abordado através de trabalhos clássicos e atuais da psicanálise. Diferentes abordagens teóricas auxiliam na compreensão da repercussão traumática na vida imaginativa e relacional na vida adulta do ser humano, quando há a ocorrência desse tipo de experiência.
Palavras-chave: trauma; abuso sexual; ilusão/desilusão; mãe suficientemente boa.
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O pensamento metapsicológico, referência matricial da psicanálise
Luís Carlos Menezes
Resumo: Concepções diferentes sobre o que seja teoria e o que seja conceito em psicanálise levam a direções bastante diferentes sobre a maneira de entender a natureza do processo analítico, assim como as formas e práticas de sua transmissão. Consideramos relevante a escolha dos recursos da metapsicologia – estreitamente imbricados com os desafios da clínica, indissociáveis da transferência e do trabalho da metáfora – como os meios mais condizentes com a natureza, em negativo, do trabalho analítico. O que se tem chamado de pesquisa empírica e de pesquisa conceitual supõe uma positividade que não condiz com aquilo de que se trata numa análise.
Palavras-chave: metapsicologia; pesquisa empírica; pesquisa conceitual; negativo na psicanálise.
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Psicopatologia psicanalítica contemporânea: clínica do desvalimento
Gley Pacheco Costa
Resumo: Tendo presente a evolução da prática psicanalítica a partir das histéricas de Freud, o autor enfatiza a mudança observada na clínica atual, em que predominam pacientes que carecem de uma vida simbólica, decorrente de uma fixação a uma etapa do desenvolvimento em que o aparelho mental é incapaz de responder por si só aos estímulos endógenos e exógenos, gerando uma experiência de desvalimento quando não conseguem contar com a ajuda de um ambiente empático. Sob a rubrica de clínica do desvalimento incluem-se pacientes com traços autistas, as neuroses tóxicas e traumáticas, as doenças psicossomáticas, as traumatofilias, as adições, os transtornos alimentares, as perturbações do dormir, a violência vincular, a promiscuidade e outras patologias que, do ponto de vista teórico, técnico e clínico, diferem das neuroses, psicoses e perversões. Para dar conta dessas patologias, impõe-se a necessidade de um novo paradigma capaz de ampliar a psicanálise para uma mente cuja lógica não é mais a do prazer-desprazer de uma erogeneidade representada, mas a da tensão-alívio de descargas, muito mais primitiva, destituída de subjetividade.
Palavras-chave: trauma; angústia; depressão; desvalimento; clínica atual.
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A “disputa” (prise de Bec) entre Beckett e Bion: a “experimentação” do insight no resplendor da obscuridade
Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho
Resumo: Este artigo parte da premissa de que o encontro psicoterápico entre Wilfred Bion e Samuel Beckett teria gerado uma espécie de laboratório emocional rico em “insights experimentais”. Com a ajuda de Film, o único filme com roteiro de Beckett, inicia-se uma discussão a respeito da visão exterior, sensorial, e da visão interior, psíquica. O assunto é expandido com os conceitos de visão binocular e monocular, propostos por Bion, e muito bem exemplificados na obra de Beckett. Confrontando a “sintaxe da fraqueza” que sustenta esta obra, com a “capacidade negativa” do analista que, de acordo com Bion, o instrumentaliza a captar os “pensamentos selvagens“ do analisando, o artigo destaca a diferença entre a não-coisa (no-thing) e o nada (nothing), subjacentes à dialética entre existir e não-existir. Como epílogo, assinala que ambos os autores se complementam ao tentar uma formulação de indagações existenciais essenciais: “Como pensar o impensável, como nomear o inomeável, como conhecer o incognoscível?”
Palavras-chave: insight; visão interior; visão exterior; visão monocular; visão binocular; negativização; capacidade negativa; “incapacidade positiva”; existir; in-existir.
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Babel ou semiosfera psicanalítica: quais as vias de desenvolvimento do conhecimento na psicanálise?
Paulo Duarte Guimarães Filho
Resumo: Inicialmente são referidos nossos estudos anteriores acerca da importância epistemológica de algumas convergências teórico-clínicas ocorridas na psicanálise, particularmente sobre a transferência e a contratransferência. A seguir, é examinado como a noção da semiosfera, proposta pelo lingüista russo Iuri Lotman, é um modelo valioso para a investigação e representação de aspectos dessas convergências e também dos processos de construção de outras noções na psicanálise. São dados dois exemplos para ilustrar nossa idéia. Primeiro, discutindo como a concepção da identificação projetiva, proveniente da psicanálise, pode ser usada para o entendimento de achados na área da neurociência, por Allan Schore; segundo, examinando como Susan Reid, num sentido inverso, parte de observações psicanalíticas sobre manifestações autísticas e as articula com dados de outras disciplinas sobre a síndrome do stress pós-traumático, para propor o “Distúrbio Autístico Pós-Traumático” (aptdd – Autistic Postraumatic Developmental Disorder).
Palavras-chave: pesquisa conceitual; confluências teóricas; transferência/contratransferência; identificação projetiva; semiosfera.
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Pluralismo na teoria e na pesquisa: e agora?
Anna Ursula Dreher
Resumo: Há bastante tempo tem havido discussões a respeito de um pluralismo nas teorias psicanalíticas. A autora afirma existir um segundo pluralismo, a saber: aquele que se dá no campo da pesquisa analítica. Observações introdutórias sobre o desenvolvimento da pesquisa conceitual servem de referência para iluminar os dois pluralismos, relacionando-os ao debate entre Green e Wallerstein a propósito do common ground em psicanálise e também a considerações sobre o status científico da psicanálise, bem como sobre certos entendimentos atuais a respeito da pesquisa analítica. A psicanálise, na condição de ciência “entre natureza e cultura” (nos termos de Green e Wallerstein), precisa levar em conta tanto a natureza quanto a cultura, e não só no âmbito dos conceitos teóricos, mas também na pesquisa e na metodologia. Seria desejável, então, tomar a existência desses dois pluralismos de forma positiva, compreendendo um e outro como recursos na busca da melhor solução dos problemas. A autora critica a idéia de um common ground imutável em psicanálise. Vê a obra freudiana como um common ground “histórico”, entendendo a imagem de homem de Freud [Menschenbild] e seu interesse pelo conhecimento [Erkenntnisinteresse] como possíveis pontos de apoio para um discurso analítico construtivo, a partir do qual um common ground deveria estar em constante elaboração. São discutidos os pré-requisitos para tal “discussão controversa” sistemática e para uma visão conexionista, sendo esta última vista como alternativa, a ser trabalhada ainda, ao fundamentalismo ou à aceitação resignada de um pluralismo arbitrário.
Palavras-chave: commom ground em psicanálise; pluralismo na teoria e na pesquisa analítica; pesquisa conceitual; discussões controversas; conexionismo.
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