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Editorial 
Leopold Nosek
11
   
  Diálogo
Entrevista: Carlos Vogt 15
     
Possíveis ressonâncias
[Comentário à entrevista de carlos Vogt]
Antonio Muniz de Rezende
28
   
Psicanálise e poesia
[Comentário à entrevista de Carlos Vogt]
Ana Maria Loffredo
34
   
  Artigos
Por uma psicanálise bem temperada
Aida Ungier
43
   
Sobre a depressão pura
Manola Vidal e Theodor Lowenkron
52
   
Paradoxo, objeto transicional e fetiche
Eloisa H. R. Valler Celeri, José Outeiral, Julio Mello Filho, Raquel Z. de Goldstein
60
   
O início do trabalho do paradoxo na clínica psicanalítica
Orestes Forlenza Neto
74
   
As principais contribuições de Winnicott à prática clínica
Orestes Forlenza Neto
82
   
O corpo e os Demônios da loucura: sobre a teoria psicossomática de Winnicott
Edna Pereira Vilete
89
   
Transferência e contratransferência: a clínica viva
Maria do Carmo Andrade Palhares
100
     
A capacidade de estar vivo
Rahel Boraks
112
     
O brincar como modelo do método de tratamento psicanalítico
Leopoldo Fulgencio
124
     
O paradigma winnicottiano e o futuro da psicanálise
Zeljko Loparic
137
     
  Intercâmbio  
O objeto não-sobrevivente: algumas reflexões sobre as raízes do terror
Jan Abram
153
   
O não-interpretar: algumas considerações sobre a contribuição de M. Balint e dois fragmentos clínicos
Vicenzo Bonaminio
172
   
  Resenhas de livros
O ser interior na psicanálise. Fundamentos, modelos e processos
Walter Trinca
Cláudia Aparecida Carneiro
189
   
Lançamentos
195
     
Orientação aos colaboradores
197

 

Editorial
Leopold Nosek

D. W. Winnicott em questão

A política editorial da Revista Brasileira de Psicanálise procura o diálogo amplo, com a abertura que nossos recursos permitem. Assim, não deixa de ser surpreendente que a interlocução com os leitores tenha demorado tanto. Alertados por um pedido da psicanalista Ana Maria Azevedo, que manifestou o desejo de debater um artigo recém-publicado de André Green, percebemos essa insuficiência. Ao mesmo tempo, ficamos lisonjeados com o fato de haver quem leia nossa publicação com interesse e atenção suficientes para fazer reparos e se dispor à discussão. Constatamos que também essa repercussão do nosso trabalho nos fazia falta.
Aliás, acreditamos que, à parte o benefício aos leitores, a criação de uma seção de cartas do leitor será extremamente proveitosa para o grupo que produz a Revista, pois nos ajudará a romper um certo tipo de isolamento, a enriquecer o exercício da crítica e a avançar na clareza de nossos objetivos como editores. No mesmo sentido se beneficiarão os autores, e o debate só tende a ganhar com a maior abertura aos que nos lêem. Gostaríamos desde já de agradecer à nossa colega e informar que sua carta será publicada no próximo número. Fazemos a todos o convite para que nos escrevam.
Dando seqüência ao debate com outras disciplinas, temos agora a presença inteligente e generosa de Carlos Vogt, que nos honra ao compartilhar conosco um pouco de sua história pessoal e profissional. Ana Maria Loffredo e Antonio Muniz de Rezende comentam do ponto de vista psicanalítico as reflexões de Vogt. Muitas são as questões que surgem na entrevista: será a psicanálise uma ciência? Será um conhecimento? Relaciona-se com a literatura e a estética? Relaciona-se como? É uma prática de criação de sentidos? Será, antes de tudo, uma reflexão ética? De que maneira a prática nos ensina a repensar a epistemologia? São questões com que nos defrontamos, cada um de nós, no exercício do cotidiano. Temos certeza, por isso, de que essas considerações serão bem-vindas e de que lançarão pontos de luz sobre uma tarefa que nos apaixona.
Este número focaliza em seus artigos a contribuição de D. W. Winnicott, cuja extensa obra é de conhecimento obrigatório em nossa área, mesmo por parte de quem não concorde com sua conceitualização. Os trabalhos abordarão a criação winnicottiana do ângulo clínico e teórico e apresentarão diferentes tipos de trajeto inspirados no autor.
Em particular, friso a discussão sobre se a obra de Winnicott propõe um novo paradigma em psicanálise ou se advém de uma apropriação original do trajeto freudiano. Lembro um tema de fundo que pode contribuir com o debate: nossa leitura não seria sempre matizada por pressupostos filosóficos ou ideológicos e mesmo, no limite, por nossa personalidade e história individual? Para além das generalizações dos conceitos freudianos, não haveria inevitavelmente um Freud “pessoal”, tão particular que se movimentaria a cada aproximação? Afinal, não somos nunca o analista que fomos na véspera. Perguntar é nossa prática essencial.
Esperamos que este número possa ampliar o nosso acervo de interrogações. Boa leitura a todos e, mais uma vez, obrigado aos nossos colaboradores.

L. N.
São Paulo, maio de 2008

 

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Possíveis ressonâncias
Comentário à entrevista de carlos Vogt
Antonio Muniz de Rezende

Resumo: Ao comentar a entrevista de Carlos Vogt à RBP, o autor faz considerações sobre a epistemologia da psicanálise, em diálogo com as outras ciências, enfatizando sua originalidade. A título de exemplo, menciona a questão da verdade na investigação psicanalítica, tanto na forma de coerência como de correspondência e consenso simbólico. Retomando uma das idéias de Vogt, o autor comenta o uso da analogia simbólica, principalmente na psicanálise de Bion e Melanie Klein. Termina recomendando a continuidade do diálogo com Vogt a respeito desses e outros assuntos abordados por ele.
Palavras-chave: epistemologia da psicanálise; analogia simbólica; verdade; diálogo interdisciplinar.

 

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Psicanálise e poesia
Comentário à entrevista de Carlos Vogt
Ana Maria Loffredo

Resumo: O texto dialoga com as idéias apresentadas na entrevista por Carlos Vogt, destacando as implicações teórico-metodológicas das relações da psicanálise com a criação poética, as especificidades do modo de produção de conhecimento na psicanálise e os impasses pertinentes à influência do nominalismo associacionista de John Stuart Mill no pensamento freudiano.
Palavras-chave: psicanálise; poesia; método; Freud; J. S. Mill.

 

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Por uma psicanálise bem temperada
Aida Ungier

Resumo: A autora procura demonstrar que o paradigma da psicanálise se alicerça nos conceitos de inconsciente, pulsão, transferência e repetição. Aqueles que acolheram o legado freudiano admitem também, que a atividade de simbolização representa a marca do humano, ainda que estejam em desacordo quanto aos caminhos trilhados para concebê-la. Winnicott alargou os limites da clínica psicanalítica ao descrever um espaço – nem externo nem interno, nem eu nem não-eu, uma transição entre o subjetivamente concebido e o objetivamente percebido – onde se cria o eu e o mundo, domínio do simbólico e berço da cultura. Para ele, nossa tarefa se faz nesse espaço. Trata-se de um jogo em que o sujeito é pensado como um permanente “tornar-se”. Tal concepção da clínica é especialmente eficiente em pacientes psicóticos ou borderlines, pacientes cujo sofrimento psíquico está além do conflito edipiano, refletindo a impossibilidade de constituição do próprio eu.
Palavras-chave: paradigma da psicanálise; simbolização; jogar; espaço transicional.

 

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Sobre a depressão pura
Manola Vidal e Theodor Lowenkron

Resumo: Esta é uma revisão bibliográfica que trata da teoria psicológica de D. W. Winnicott sobre a depressão, em sua relação com a capacidade de preocupação com o outro. Realiza-se uma abordagem dos artigos que se referem às formas pura e impura da depressão. A finalidade é demonstrar os pressupostos do autor quanto à existência de processos mentais derivados da relação mãe-bebê e ligados à integração da crueldade primária necessária ao estabelecimento da capacidade de preocupação e reconhecimento da alteridade.
Palavras-chave: depressão; crueldade primária; preocupação.

 

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Paradoxo, objeto transicional e fetiche
Eloisa H. R. Valler Celeri, José Outeiral, Julio Mello Filho, Raquel Z. de Goldstein

Resumo: Tomando como ponto de partida a afirmação de que “em nenhum campo cultural é possível ser original, exceto numa base de tradição” (“d. w. w. por d. w. w”, 1967), este artigo visa rastrear a produção de autores contemporâneos de Winnicott e reconhecer possíveis influências que teriam contribuído para a “invenção” dos conceitos de objeto transicional e espaço potencial. Busca-se também, desta forma, neste vértice, trazer subsídios para a discussão sobre a possibilidade de a clínica e a teoria desenvolvidas por Winnicott constituírem um novo paradigma dentro do campo psicanalítico.
Palavras-chave: paradoxo; objeto transicional; Winnicott; fetiche.

 

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O início do trabalho do paradoxo na clínica psicanalítica
Orestes Forlenza Neto

Resumo: A autora contextualiza a noção de paradoxo em diferentes disciplinas, reservando-a tal como usada por Winnicott para o final do trabalho, depois de apresentar um relato clínico sobre uma menina de 9 anos em pleno processo de dar início ao pensamento paradoxal. Bia, ao iniciar o tratamento, encontrava-se em franco surto psicótico. A analista se propõe ficar o mais próxima possível da vida expressa pela criança durante a sessão, para tentar colher o que de mais singular e criativo existe na comunicação da paciente. A autora se vale da sistematização dos paradoxos winnicottianos realizada por Roussillon, que considera o paradoxo do “encontrado-criado” um facilitador da maturação. É esse paradoxo do “encontrado-criado” que está em jogo na sessão aqui relatada.
Palavras-chave: paradoxo; simbolização; clínica infantil; Winnicott; objeto transicional; fenômeno transicional.

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As principais contribuições de Winnicott à prática clínica
Orestes Forlenza Neto

Resumo: O trabalho de Winnicott abre-nos possibilidades de analisar pacientes difíceis, com a teoria do “amadurecimento pessoal” e o uso dos fenômenos de “regressão à dependência” na interação paciente/analista, que fornece o holding necessário e deve decidir quando falar e quando silenciar, particularmente nas situações de “descongelamento” do trauma, quando a aceitação das críticas do paciente às falhas do analista, sem revidar ou se justificar, é um importante elemento de retomada do desenvolvimento, sobretudo em casos de pacientes bordelines, esquizóides e narcísicos graves, nos quais o mais importante é a “sobrevivência do analista”.
Palavras-chave: dependência absoluta; regressão à dependência; holding; descongelamento da situação traumática; destruição e sobrevivência do analista; manejo do setting.

 

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O corpo e os Demônios da loucura: sobre a teoria psicossomática de Winnicott
Edna Pereira Vilete

Resumo: A autora estuda um personagem de Aldous Huxley no livro Demônios da loucura. Nesse texto, misto de ensaio histórico e ficção, Huxley aborda o processo de endemoninhamento das freiras ursulinas de Loudun, dando destaque ao padre exorcista Jean Joseph Surin. Surin adoece, padecendo por vinte anos de transtornos psicossomáticos. A autora analisa os seus sintomas à luz da teoria psicossomática de Winnicott, aplicando, em especial, as idéias sobre as bases para o self no corpo.
Palavras-chave: corpo; self; psique-soma; cisão; desintegração; integração.

 

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Transferência e contratransferência: a clínica viva
Maria do Carmo Andrade Palhares

Resumo: Neste trabalho, a articulação entre transferência e contratransferência destaca o campo psicanalítico como expressão viva do encontro humano. A abrangência e a complexidade do tema são abordadas na perspectiva de diversos autores psicanalíticos. Da tradição à contemporaneidade, percorremos um vasto território conceitual, ratificando, desde a descoberta por Freud, o vigor desse fenômeno relacional que desafia ativamente a continuidade do processo analítico. Buscamos destacar a vivacidade e a importância do manejo dessa experiência como aspectos fundamentais à manutenção e à expansão da prática psicanalítica no mundo atual. Daí se origina um percurso que vai da ontologia à constituição do psiquismo como questão do humano na modernidade.
Palavras–chave: transferência; contratransferência; ontologia; psiquismo; repetição; manejo.


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A capacidade de estar vivo
Rahel Boraks

Resumo: Este trabalho, ilustrado com casos clínicos, busca acompanhar o desenvolvimento e a expressão da capacidade de estar vivo nas várias etapas do amadurecimento, segundo a teoria de Winnicott. O tema se expande para realçar as implicações que tem com a experiência corporal, emocional e afetiva, até alcançar questões relativas à ambivalência de paciente e analista quanto à capacidade de estar vivo.
Palavras-chave: relação analítica; vitalidade em Winnicott; sobrevivência; presença viva do analista; sentir-se real; estar vivo.

 

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O brincar como modelo do método de tratamento psicanalítico
Leopoldo Fulgencio

Resumo: O autor mostra que o tratamento psicanalítico, do ponto de vista de Winnicott, tem um modelo clínico diferente do modelo freudiano e kleiniano. Esse modelo se torna mais claramente visível caso utilizemos, para compreensão geral das propostas e diferenças entre esses autores, a noção de paradigma tal como a formulou Thomas Kuhn. Ao explicitar as características da matriz paradigmática da psicanálise tradicional, podemos focar a atenção num dos elementos dessa matriz – o que diz respeito ao modelo heurístico para a prática de resolução de problemas (clínicos) na psicanálise – e, analisando a obra de Winnicott, distinguir, de um lado, um método de tratamento que tem na interpretação e no desvelamento dos conflitos inconscientes (referidos à sexualidade e ao complexo de Édipo) o seu guia, e, de outro lado, um modelo clínico psicanalítico que tem o seu telos no brincar, na criatividade e no encontro de si mesmo.
Palavras-chave: método; tratamento; brincar; Winnicott.

 

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O paradigma winnicottiano e o futuro da psicanálise
Zeljko Loparic

Resumo: Depois de apresentar os desafios atuais com que se defronta a psicanálise, este trabalho analisa as respostas a esses desafios que foram ou poderiam ser utilizadas pelos psicanalistas. Tendo feito a exposição da resposta conservadora, que consiste em defender a metapsicologia de Freud, e da assimilativa, que inclui a psicanálise na federação das ciências cognitivas e na aceitação da metapsicologia cognitivista, o texto apresenta a resposta por mudança paradigmática, contida na obra de Winnicott.
Palavras-chave: neurociências; cognitivismo; metapsicologia; paradigma; Winnicott

 

 

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O objeto não-sobrevivente: algumas reflexões sobre as raízes do terror
Jan Abram

Resumo: Ao acompanhar uma fase especialmente difícil de um paciente borderline sádico – durante a qual a analista se sentia aterrorizada –, a autora inicia uma investigação sobre o sentido do terror como conceito em psicanálise. Seguindo a teoria do uso do objeto de Winnicott, propõe a noção de um objeto sobrevivente e de um não-sobrevivente relacionados à fase mais precoce do desenvolvimento. Tendo sugerido em trabalho anterior que o objeto sobrevivente emerge da sobrevivência do objeto, a autora apresenta aqui o corolário dessa sugestão, a saber: as raízes do terror podem ser encontradas na não-sobrevivência do objeto, datando de uma época em que houve falha do objeto externo em oferecer a primeira nutrição teórica. Essa idéia é ilustrada por meio de um exemplo clínico detalhado. Nas considerações finais, Abram comenta uma recente pesquisa de sua autoria. Ali ela mostrou que Winnicott, ao longo dos três últimos anos de vida, considerou que uma não-sobrevivência do objeto no início negava a necessidade de uma teoria do “instinto de morte”. Assim, sua teoria representa um retorno à metapsicologia freudiana, ainda que ele discorde da noção de “instinto de morte” proposta por Freud mais ao final de sua obra.
Palavras-chave: terror; sobrevivência do objeto; objeto sobrevivente intrapsíquico; objeto não-sobrevivente intrapsíquico; destruição; nutrição teórica; criatividade primária; teoria da agressividade
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