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Sumário

Editorial
Leopold Nosek
9
     
Entrevista        
Fabio Herrmann
11
     
Artigos estrangeiros
Freud e a Filosofia  
Jean Laplanche         
21
     
A posição de Freud na moderna história das idéias     
Thomas Mann 
27
     
Artigos ABP
Freud: um psicanalista de adolescentes
José Outeiral
Eloisa Helena Rubello Valler Celeri
43
     
Eterna-mente Freud
Maria Eliana B. M. Helsinger
55
     
Freud e a ordem do sexual: do trauma a fantasia         
Alírio Dantas Jr
59
     
A descoberta inaugural: o desejo humano, este obscuro e incerto objeto    
Luiz Carlos Menezes
67
     
A sedução da violência           
Admar Horn
77
     
Nosso amor de ontem...e que se fez permanente
Ângela Maria Lobo Sollberger
83
     
Psicanálise: filosofia auxiliar/verdadeira filosofia
José Nepomuceno
93
     
Desenvolvimento regressivo e a psicanálise na civilização contemporânea  
Miguel Sayad
101
     
Fetichismo e Pensamento: o pensamento como fetiche
Paulo de Moraes Mendonça Ribeiro
109
     
Moral e ética na obra de Freud
Germano Vollmer Filho
117
     
Freud, o estranho
Lores Pedro Meller
125
     
Vértices psicanalíticos da comunhão   
Waldemar Zusman
133
     
Traduzindo Freud
Elsa Vera kunze P. Susemihl
139
     
Literatura
Freud e Machado de Assis – Psicanálise e Literatura
Luiz Alberto Pinheiro de Freitas
153
     
Guimarães Rosa e Freud: o chiste e o desejo
Yudith Rosenbaum
161
     
Resenhas de Livros
This Art of Psychoanalysis. Dreaming Undreamt Dreams and Interrupted Cries.
Thomas H. Ogden
Maria Stela de Godoy Mreira
171
     
Curando com histórias.  A inclusão dos pais na consulta terapêutica das crianças
Gilberto Safra
Josefina Paulon
173
     
Adoção          
Gina Levinzon
Alessandra Ricciardi Gordon
176
     
Novas problemáticas da adolescência: evolução e manejo da dependência  
Philippe Jeammet
Yvete Piha Lehman
179
     
     
Resenhas de Revistas 186
     
Lançamentos 193
     
Normas de publicação 199

 

Editorial

Leopold Nosek

Freud 1856-2006

A seis de maio de 1856 nascia Sigmund Freud, filho primogênito do terceiro casamento de Jacob Freud. O local de seu nascimento, Pribor, chamava-se Freiberg à época, e era uma cidade de 4500 habitantes na Morávia, que era parte do império austro-húngaro.
Os judeus foram emancipados em 1848, mas sua entrada em Viena só foi permitida pelo imperador Francisco José em 1860. Este período histórico foi marcado pela industrialização, criação dos estados nacionais, lutas operárias e pela difusão do ideário iluminista. O grupo judeu do centro da Europa foi possivelmente o último a deixar seu característico modo de vida feudal, intermediário entre a aristocracia e o campesinato. Esse grupo constituía-se de artesãos, pequenos comerciantes e sobrevivia precariamente à transição. Data dessa época o surgimento da Ashkalá, o movimento iluminista judeu. Apesar de sua marginalidade social, era um grupo fortemente letrado e habituado à prática interpretativa e reflexiva a partir dos textos sagrados. Podiam assim dar forma ao seu descentramento.
Tais características, na medida da abertura de perspectivas, conferiam ao grupo um potencial grande de participação. Assim, em pouco tempo, estavam no centro das atividades econômicas, políticas, ideológicas, artísticas e científicas. Em poucos anos, na Universidade de Viena, encontramos grande número de estudantes judeus, que também estão presentes em outros ramos de atividade. Tal fato agudiza sentimentos anti-semitas que nunca deixaram de existir. Judeus participavam de bancos, de indústrias, do comércio, da social-democracia, do sionismo e do bolchevismo. Cria-se um duplo movimento contraditório de retorno a uma identidade originária e ao mesmo tempo em direção ao cosmopolitismo e à reflexão acerca dos problemas do conjunto da humanidade.
É nesse caldo de cultura que surge a psicanálise. Talvez ela mesma um dos movimentos de recuperação das próprias origens, da teorização acerca da construção do espírito e da apropriação humana - um passo a mais na direção do seu próprio destino.
Circunstâncias específicas dão, naquele momento, o contorno às manifestações do sofrimento psiquiátrico e de suas formas de abordagem e solução. Idéias vindas da psicanálise como o inconsciente, sociabilidade infantil, transferência, recalque, reflexões sobre agressão, moralidade, destruição, relações amorosas entranham a cultura e transformam definitivamente a filosofia, a sociologia, a pedagogia, a estética, a ética e a moralidade. A psicanálise como modo de pensar participava definitivamente, de alguma forma, do viver quotidiano.
Hoje, 150 anos mais tarde, a prática terapêutica que se nutre desse conjunto de idéias sofre uma crise. Aliás, a psicanálise sempre viveu em meio a crises e conflitos, e com certeza esse é um solo fértil. O mundo se transforma e cada geração viveu a chegada do novo em meio à perplexidade e resistência. Mas o momento atual impõe inclusive a discussão de como nomeá-lo. Ainda que em nome da modernidade ou de uma modernidade tardia, o momento que vivemos necessita identificação e reflexão. Seja pelo surgimento de algo novo na sociedade ou pela intensificação de tendências prévias, o fato é que a acumulação necessária à produção se radicaliza, tendo como conseqüência o incremento da competição e da exclusão.
O maior acesso a riquezas é concomitante às dificuldades de usufruí-las. Os estados nacionais cedem à globalização e o mercado chega aos confins do globo. O quotidiano se transforma e com ele o modo de pensar. A rapidez e a volatilidade dos tempos permitem uma menor possibilidade de sonho e pensamento. Em todos os setores a rapidez de resultados se impõe. A razão se torna instrumento e seu desenvolvimento se faz ganhando extensão e não profundidade.
A psicanálise, que nasce em situações de descentramentos, assim permanece. De fato, ela se torna cada vez mais necessária. Estamos mais uma vez presos às transformações do mundo e ao desamparo de soluções prévias. O olhar radical da psicanálise para o humano, para questões como o estrangeiro, a hospitalidade, as oportunidades de crescimento e usufruto da vida, o conflito e a destrutividade onipresentes configuram uma ética do pensar, da pesquisa, da preocupação de todos os analistas. Hoje somos herdeiros desta reflexão com o dever de nela prosseguir, sem estacionar no saber constituído.
Este número e o seguinte são uma homenagem. Para tanto, não poderia haver outra expressão que não “continuar pensando”.
Esta é a apresentação de uma amostra do que se faz em nosso meio, e uma tentativa de aprofundar e ampliar essa reflexão. Convidamos nossos leitores e colaboradores a esse esforço que é a direção que a RBP tentará seguir. Como sempre, contamos com a colaboração crítica de quem nos acompanha.

Maio de 2006

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Freud e a filosofia

Jean Laplanche
Tradução de Marcelo Marques

 

Resumo: Neste artigo, Laplanche levanta questões sobre o que provavelmente Freud se refere quando trata de filosofia. Salienta que, apesar de ninguém ter tentado colocar Freud no divã, examinará o nível de exigência necessário ao se estudar a obra escrita de Freud e seu equilíbrio entre o dizer e o fazer. Ou seja, entre a visão de mundo filosófica e a ciência. Baseando-se em Karl Popper sobre a visão de ciência comparada a da filosofia que, apesar de trabalhar em parte com os mesmos métodos, tem o defeito de querer atingir por meio de asserções positivas uma unidade que, na ciência, permanece como intenção reguladora e programática. Daí a importância, para Freud, do termo “especulação” definida como uma tentativa de explorar de maneira conseqüente uma idéia, com a curiosidade de ver onde isso levará.

Unitermos: filosofia, ciência, visão de mundo, especulação, conjectura, refutação ou falsificação.

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A posição de Freud na moderna história das idéias

Thomas Mann

Resumo: Thomas Mann partindo do aforismo de Nietzsche “a hostilidade dos alemães contra o iluminismo”, discute o romantismo alemão, o iluminismo e o conceito do que pode ser considerado revolucionário no campo da cultura. Considerando a dicotomia entre sentimento “lado noturno da natureza e da alma” e razão entendida como ligada aos “poderes da luz e à emancipação da razão”, Mann apresenta sua própria concepção de revolucionário na cultura, situando aí a psicanálise. Mann termina seu artigo defendendo o espírito da psicanálise afirmando: “Com sua ênfase sobre o demoníaco na natureza, com a sua paixão de pesquisadora das esferas noturnas da alma, ela é tão anti-racional como qualquer manifestação do novo espírito que está em luta vitoriosa com os elementos mecânicos-materialistas do século XIX. Ela é revolução inteiramente no seu sentido”.

Unitermos: cultura, filosofia, romantismo alemão, Nietzsche, iluminismo.

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Freud: um psicanalista de adolescentes

José Outeiral
Eloisa Helena Rubello Valler Celeri

Resumo: Os autores procuram, através de três vertentes: a adolescência de Freud, as pacientes adolescentes que ele atendeu e seus conceitos sobre adolescência, demonstrar a significativa importância que este autor dava a esta etapa do desenvolvimento emocional.

Unitermos: Freud, psicanálise de adolescentes.

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Eterna-mente Freud

Maria Eliana B. Mello Helsinger

Resumo: Em homenagem aos 150 anos do nascimento de Freud a autora cria um diálogo imaginário com o fundador da psicanálise, falando sobre as suas obras principais e seus desdobramentos na modernidade. Enfatiza a importância da psicanálise nos dias de hoje como um fundamental instrumento contra a desumanização.


Unitermos: transferência, desejo, trieb, histeria, contemporaneidade.

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Freud e a ordem do sexual: do trauma à fantasia

Alirio Dantas Jr.

Resumo: O autor discute alguns pontos do conceito de sexualidade em Freud. Enfatiza a distinção entre sexualidade e genitalidade de acordo com a perspectiva freudiana, e sublinha a importância essencial desta visão alargada do sexual para o desenvolvimento da teoria psicanalítica. O artigo sustenta que a pulsão sexual é crucial para a estruturação do inconsciente.


Unitermos: sexualidade, inconsciente, pulsão, trauma, genital, genitalidade, erotismo.

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A descoberta inaugural: o desejo humano, este obscuro e incerto objeto

Luís Carlos Menezes

Resumo: O autor considerou que a descoberta inaugural da psicanálise foi a noção de desejo inconsciente, descoberta em estreita relação com a (auto)-análise de Freud. Ele o encontrou operando nos sintomas neuróticos, nos sonhos, nos lapsos, nos chistes, e o considerou como motor ou vetor de toda a atividade psíquica, inclusive da atividade intelectual.
O desejo inconsciente é concebido em estreita correlação com a experiência de satisfação junto a outrem capaz de compreender as necessidades do ser em desamparo. Corresponde ao investimento das marcas mnésicas deixadas pela experiência de satisfação e ao investimento destas como norteador daquilo que o sujeito busca nos sonhos, sob forma alucinatória ou pelos pensamentos. O que dá realidade ao vivido, ao pensado, é o desejo inconsciente.
Casos clínicos de Freud, dos inícios, assim como uma vinheta clínica do autor, são comentados para ilustrar esta concepção. O autor se baseia principalmente nas cartas a Fliess, no Projeto, na Interpretação dos sonhos e nos Estudos sobre a histeria.

Unitermos: desejo inconsciente, análise de Freud, experiência de satisfação, grito e linguagem.

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A sedução da violência

Admar Horn

Resumo: A partir do relato de um fato ocorrido recentemente com colegas psicanalistas, o autor faz uma reflexão sobre como conceber a sedução da violência.O texto é baseado nas idéias de um psicanalista francês, Benno Rosenberg. Expõe como a violência se vincula com as fontes pulsionais de vida e de morte expostas por Freud e tenta elaborar a sua gênese psíquica. O masoquismo é o exemplo paradigmático da intrincação de tais pulsões. A violência dependerá da força e da qualidade, mortífera ou não, deste masoquismo.

Unitermos: Violência, pulsão de vida, pulsão de morte, masoquismo.

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Nosso amor de ontem… e que se fez permanente

Ângela Maria Lôbo Sollberger

Resumo: a autora faz uma homenagem aos 150 anos de Sigmund Freud – nosso amor de ontem que se fez permanente –, através da leitura crítica do texto O mal-estar na civilização (1929[1930]/1974). Discute a questão do amor e do ódio na contemporaneidade, das identificações e de suas formas de estruturação. E levanta um questionamento sobre a responsabilidade dos psicanalistas frente às demandas sociais. Para suas reflexões utiliza-se das idéias freudianas, de alguns psicanalistas contemporâneos, particularmente Florence Guignard, do sociólogo Zygmundt Bauman, do cientista político Paulo Sérgio Rouanet e do historiador Peter Gay, numa tentativa de compreensão do homem e sua cultura nos dias atuais.

Unitermos: Freud, mal-estar na civilização (cultura), mal-estar na modernidade, sexualidade, agressividade, transmissão, identificação, sentimento de pertença, capacidade de amar, psicanálise na contemporaneidade.

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Psicanálise: filosofia auxiliar/verdadeira filosofia?

José Nepomuceno

Resumo: O autor focaliza algumas contribuições da cultura grega para a psicanálise, dando ênfase à interface entre nossa disciplina e a filosofia. É apontado e analisado o aparente contraste que há, em Freud, a respeito, especificamente, do valor das contribuições filosóficas ao pensamento do mesmo. Nesse sentido, é apresentada citação de Freud, na qual ele afirma, em termos, que a psicanálise é a verdadeira filosofia. É igualmente avaliado o estatuto epistemológico do legado freudiano, procurando-se, em particular, o imbricamento dessa condição com diversos conceitos da verdade.


Unitermos: psicanálise, cultura grega, epistemologia, teorias da verdade.

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Desenvolvimento regressivo e a psicanálise na
civilização contemporânea

Miguel Sayad

Resumo: Esta é uma reflexão sobre a obra de Freud em comemoração a seus 150 anos. A partir de seu Estudo autobiográfico e seu “desenvolvimento regressivo” (o retorno aos estudos sociais), é abordada a pertinência da ação da IPA e da psicanálise nos conflitos sociais e entre nações envolvendo a violência política, os preconceitos racial e religioso, o terrorismo individual e de Estado.
É proposta a retomada de estudos psicanalíticos de temas religiosos e sociais que fundam as identificações e mitos formadores do imaginário religioso do Ocidente: o Velho Testamento, o Alcorão, A Terra Prometida e Iavé ou Alá.
A presença da IPA na ONU, seu Comitê para “Estudo sobre o terror e a violência política” , e os temas do Congresso de Berlin são abordados como possibilidades de intervenção para alterar de alguma forma as condições nacionais e internacionais que determinam a ocorrência de traumas extremados.

Unitermos: Civilização: Iavé-Velho testamento-Torah-terror-genocídio-violência social-trauma extremado-negação-silêncio-falsidade-medo de saber-trauma transgeracional x psicanálise-conhecimento-palavra-ação-ABP-IPA-ONU-lei.

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Fetichismo e pensamento: o ‘pensamento’
como fetiche

Paulo de Moraes Mendonça Ribeiro

Resumo: Partindo da observação clínica da forma do funcionamento do ‘pensar’ e do uso que alguns pacientes em análise fazem dos seus ‘pensamentos’, o autor propõe uma reflexão sobre um possível uso perverso do pensar. Utiliza a descrição do conceito metapsicológico da “negação” (Verleugnung), proposto por Freud no texto Fetichismo, como modelo para reflexão. O paciente percebe o analista na sala, em contato emocional com ele, mas ao mesmo tempo se evade desse contato, deslocando sua atenção para uma atividade mental circular reverberante que não leva a lugar algum. Chamou essa atividade mental de “pensamento como fetiche”.
Essa modalidade do ‘pensar’ funciona como defesa e acalma o paciente, no entanto, não se trata de uma tentativa de lidar com angústias profundas, mas, sim, de mecanismo perverso (atividade –K) que visa a negação da realidade e a evasão da experiência emocional. É funcionamento sob a égide da “compulsão a repetição” (Freud), tende ao infinito e estimula a hipertrofia das “transformações em alucinose” (Bion). Cabe ao analista identificar essa forma de pseudo-pensar, e apresentar o paciente às verdades por ele negadas; do contrário, o paciente continuará produzindo dissociações livres indefinidamente, ‘coisificando’ sua mente e a relação humana com o analista, secretamente triunfando sobre a análise em uma espécie de gozo maníaco.

Unitermos: ‘pensamento’ como fetiche, fetichismo, sensorialidade, ‘pensamento’ com superfície sensorial, negação.

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Moral e ética na obra de Freud

Germano Vollmer Filho

Resumo: O autor destaca inicialmente a influência da religião no pensamento de Freud, que de acordo com seus biógrafos, determinou traços éticos marcantes em seu caráter, importantes na construção da sua obra.
A seguir, é apresentada, de forma resumida, sua análise da religião e sua proposta para uma evolução, na humanidade, do pensamento religioso para o pensamento científico, capaz de forjar uma ética e moral onde predomine a razão.
Por último é estudada, de maneira abreviada, a gênese e função do superego, e a necessidade para o estabelecimento de uma ética e moral no ego de uma maior autonomia do mesmo.

Unitermos: ética, moral, religião, superego

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Freud: o estranho

Lores Pedro Meller

Resumo: O autor apresenta uma leitura de aproximação entre o sentimento de estranhamento associado à psicanálise e a Freud, e o sentimento unheimlich esquadrinhado num dos célebres artigos do mestre. Apresenta, igualmente, um esboço do processo e do contexto do iluminismo em relação aos propósitos e aos parâmetros das idéias freudianas, conduzindo, assim, ao tema do desamparo e da produção da não-felicidade relacionado ao processo ontológico proporcionado pela frustração pulsional, requerida no processo civilizatório. Recorrendo, pricipalmente, a Bauman, o autor amplia a leitura com elementos que buscam aclarar as relações entre Freud e a ciência de seu tempo e a complexidade identitária do ser-judeu na sociedade vienense.

Unitermos: estranho, desamparo, ambivalência, iluminismo, positivismo, mal-estar.

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Vértices psicanalíticos da comunhão

Waldemar Zusman

Resumo: O autor assinala que o conceito de comunhão foi, de certa forma, ex-comungado da psicanálise por uma espécie de apropriação do termo pelos rituais das religiões. A experiência de comunhão, contudo, está presente em vários aspectos do comportamento humano e faz parte da vida de cada um desde seus momentos iniciais, no útero materno. Os temores de Freud de que a psicanálise sucumbisse a uma contaminação religiosa também contribuíram para que as vivências de comunhão ganhassem uma nominação alternativa. A atividade analítica, no entanto, implica em momentos de comunhão que fundamentam a interpretação e lhe dão autenticidade. A comunhão do feto com a mãe se interrompe no trauma do nascimento, mas permanece como ameaça latente na temida mudança catastrófica. A comunhão transcende seus limites biológicos e se espraia pelo campo da estética.

Unitermos: comunhão, falseamento da comunhão, mudança catastrófica, dominação.

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Traduzindo Freud

Elsa Vera Kunze P. Susemihl

Resumo: Após breve relato do percurso que a levou a ser tradutora de Freud, a autora apresenta alguns momentos da história da edição das obras completas de Freud e da tradução destas para o inglês pela Standard edition e para o português a partir desta. Comenta algumas críticas a estas e a partir destas e de aportes vindos, também, da tradução para o francês, reflete sobre alguns critérios de tradução para uma nova tradução. É apresentado o projeto da Nova tradução das obras psicológicas de Sigmund Freud para o português pela editora Imago e alguns de seus parâmetros. A autora encerra com algumas reflexões sobre sua experiência e uma correlação entre os ofícios de traduzir e psicanalisar. Segue como apêndice um resumo dos parâmetros adotados na nova tradução acompanhados de discussão de alguns exemplos esclarecedores.

Unitermos: tradução das obras completas para o português, críticas às traduções de Freud, estilo e escrita de Freud, parâmetros de tradução, caráter imagético da língua alemã, psicanálise e tradução.

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Freud e Machado de Assis: psicanálise e literatura

Luiz Alberto Pinheiro de Freitas

Resumo: Este trabalho pretende exemplificar como se pode fazer psicanálise em extensão, assinalando as possibilidades de uma interseção entre a psicanálise e a literatura. Através da análise do personagem feminino do conto machadiano “Singular ocorrência”, poder-se-á mostrar, utilizando-se os conceitos psicanalíticos, o caráter universalizante do personagem, na medida em que é um personagem permanente – repetição inconsciente de uma forma de ser na cultura.

Unitermos: psicanálise, literatura, Freud, Machado de Assis.

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Guimarães Rosa e Freud: o chiste e o desejo

Yudith Rosenbaum

Resumo: Analisando o conto Desenredo, de Guimarães Rosa, este ensaio mostra a importância de algumas de suas estratégias estilísticas, tais como o uso da paranomásia, linguagem infantil, chistes e trocadilhos, como um meio de subverter ou reconfigurar a realidade, relacionando os procedimentos literários de Rosa com O chiste e suas relações com o inconsciente, de Freud, e com Formas simples, de André Jolles. Traído por sua mulher, o anti-herói do conto, Jó Joaquim, arranja para si mesmo uma nova narrativa de seu destino, na qual um final cômico e inesperado reassegura sua felicidade; o papel dos chistes na economia libidinal, revelado por Freud, encontra, assim, no conto de Rosa uma ilustração convincente.

Unitermos: Freud, chiste, Guimarães Rosa, economia libidinal.

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