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Editorial  
  Leopold Nosek
5
   
  Diálogos interdisciplinares
   
Entrevista com Davi Arrigucci Jr.
9
   
  Artigos preparatórios do congresso
   
Preâmbulo Os traumas nossos de cada dia
  Cláudio Laks Eizirik
21
Por que uma conferência internacional de psicanálise?
  Elias M. da Rocha Barros
23
Variações do conceito de traumatismo: traumatismo, traumático, trauma
  Thierry Bokanowski
27
A situação traumática básica na relação analítica
  Raul Hartke
39
Especificidade da tortura como trauma. O deserto humano quando as palavras se extinguem
  Marcelo N. Viñar
59
Los degradados, pra fora, pra baixo, morte, o trauma transmitido e infligido, conforme foi encontrado na análise de uma menina de 6 anos
  James M. Herzog
75
   
  Reflexões brasileiras
   
Retraumatização psicanalítica
  Alexandre Kahtalian
95
Trauma e subjetivação
  José Nepomuceno
103
Trauma
  Celmy de A. A. Quilelli Corrêa
121
A clínica psicanalítica do trauma
  Luís Carlos Menezes
131
   
  Artigos
   
A teoria freudiana do trauma revisitada
  Miguel de la Puente
141
   
  Intercâmbio
   
A sublimação no tratamento e na teoria
  Francesco Conrotto
155
   
  Resenhas
171
   
  Lançamentos
194

Trauma e elaboração
Leopold Nosek

Tu le connais, lecteur, ce monstre délicat.
C. Baudelaire, 1861, Lês Fleurs du Mal

Obviamente, como o leitor deve ter notado, estamos ensaiando um novo projeto gráfico. Isto é parte de nosso trajeto de busca. Propusemos indagações em nossa estréia na editoria da Revista Brasileira de Psicanálise, no número anterior, e continuaremos nesta linha.
A psicanálise é praticada em um espaço-tempo específico e sua prática única e pontual não comporta repetições. Como psicanalistas sabemos que as respostas e os caminhos de ontem precisam ser reconstruídos a cada momento para dar conta do específico acontecer pulsional, com suas qualidades de realização e figuração próprias. Além disso, em um mundo de transformações tão rápidas, imprevistas e radicais, a psicanálise como prática e teorização também se depara com sua perplexidade. Não é propriamente sua crise, pois a perplexidade, a surpresa e o susto são nossos acompanhantes habituais. Talvez um componente específico deste momento histórico seja o incremento na velocidade das transformações.
Os artistas, para iluminar o viver e lhe dar forma, necessitam cada vez mais radicalmente colocar a sua personalidade, sua subjetividade, no seu trabalho, na sua criação.
A performance radicaliza o gesto estético. Talvez o gesto clínico também necessite de novas coragens. As relações familiares se esgarçam assim como as relações comunitárias. Nestes contextos a construção dos sonhos sofre. Isto acontece tanto com nossos projetos de vida como no que é específico da construção onírica que nos proporciona trajetos para o viver cotidiano.
Novas formas do sofrer nos assombram em nossos consultórios. A necessidade da intimidade, dos tempos próprios para a construção e desfrute de uma poética e de um saber marca a demanda a que estamos submetidos.
Chegamos assim ao trauma, tal como definido por Freud: um excesso de estimulação que não encontra trajetos elaborativos e que está presente desde a fundação da psicanálise, com a teoria da sedução. Prossegue com os desenvolvimentos sobre neurose traumática a partir dos desafios clínicos que acompanham a primeira guerra mundial. Está presente na passagem da primeira para a segunda tópica, nas observações de Freud de que os sonhos estavam sendo abandonados. O exercício de refletir sobre a questão dos estímulos e sua elaboração não seria o ponto de intersecção de toda a metapsicologia?
De qualquer forma acompanhemos a reflexão dos autores cujos trabalhos apresentamos neste número.
Alguns parecem pensar e propor isolar uma entidade psicopatológica específica com definições estritas, enquanto para outros o trauma se esparrama pelo conjunto do fazer analítico.
Não estaria proposta aí a investigação acerca da estimulação pulsional e do mundo interno? Não estaria também aí a passagem do pulsional, das fantasias concretas, da representação coisa para a mobilidade e riqueza da construção onírica? Seria o trauma o conceito-chave que propõe a reflexão geral sobre o nosso fazer clínico?
Como pela primeira vez teremos em nossa casa o Congresso da Associação Psicanalítica Internacional, pensamos que seria interessante uma introdução a este número feita por Cláudio Eizerik, primeiro presidente brasileiro da IPA, e Elias M. Rocha Barros, co-chair do Congresso. Também eles nos apresentam os marcos de nossas perplexidades.
Estando nossa prática psicanalítica atual marcada por constantes desafios provenientes de demandas tanto no âmbito interno como extra-institucionalmente, nada mais coerente do que revisitar o trauma. Aliás, um subproduto positivo muito importante da globalização é a ruptura de barreiras, o movimento em direção à internacionalização. O trauma trata desta dialética entre construção e destruição de fronteiras. Em nosso trabalho o saber se movimenta entre memórias que são área da neurose e desconhecimentos que são área do trauma. Entre as duas, em alguns momentos, somos analistas.
Trauma é o eixo deste número. Pretendemos tomar uma direção editorial em que cada vez mais tenhamos a discussão centrada em temas.
Assim temos, de início na seção temática, os artigos preparatórios ao Congresso da IPA no Rio de Janeiro indicados pela organização do Congresso. São quatro autores: Tierry Bokanowski, Raul Hartke, Marcelo N. Viñar e James M. Herzog e a eles seguem-se as reflexões de colegas indicados por sociedades brasileiras – Alexandre Kahtalian, José Nepomuceno, Celmy de A. A. Quilelli Corrêa e Luís Carlos Menezes.
Iniciamos também uma seção permanente de diálogos interdisciplinares em que debateremos as interrogações, impasses e desenvolvimentos vindos de outras áreas das ciências humanas. Ampliar nossa inserção no debate interdisciplinar presente é projeto essencial da Revista Brasileira.
Davi Arrigucci Jr. centra o diálogo com nosso grupo analítico acerca do tema da interpretação, assunto essencial de nossa disciplina que merece ser revisitado. Nada mais enriquecedor que novas metáforas, nova linguagem para nos desafiar e romper os limites de nosso hábito e de nossa imobilidade.
Temos também a seção de intercâmbio em que o espaço aberto pela Revista para um autor italiano teve sua contraparte na publicação de autores nossos na Revista Italiana de Psicanálise; neste número o artigo de Francesco Conrotto.
Finalizando, mantivemos o espaço para as contribuições habituais de nossos colegas, assim neste número contamos com a reflexão de Miguel de la Puente.
Enfim, espero que estejamos trilhando um caminho em que o movimento dialético entre o geral necessário de uma disciplina universal e a especificidade da prática individual se faça presente. Trajeto de elaboração de um trauma e coragem para enfrentar o próximo. Que afinal onde havia id possa haver ego não significaria que onde havia natureza possa haver cultura?
Não procuramos a cada dia novos versos, novas canções? Não necessitamos a cada momento clínico novas figurações, novas metáforas? Então, sem alternativas, lembremos com o poeta que “com o diabo na rua, no meio do redemoinho” viver é muito perigoso, não é mesmo? “lecteur, mon semblable,” – meu compadre…


Os traumas nossos de cada dia
Cláudio Laks Eizirik*

O primeiro congresso da Associação Psicanalítica Internacional a ser realizado no Brasil, em julho próximo, no Rio de Janeiro, se debruçará sobre o trauma, em suas múltiplas perspectivas. Conceito nuclear da teorização freudiana, pode-se visualizar o trauma como uma encruzilhada para onde convergem e de onde partem inúmeras vias e possíveis vértices de reflexão: metapsicológicos, clínicos, reconstrutivos, transferenciais, psicopatológicos, de interface com a cultura, institucionais, de pesquisa.
A partir do amplo programa elaborado para o Congresso do Rio, que oferece espaço para todas essas áreas e certamente vai permitir uma ampla reflexão compartilhada, podemos supor que teremos uma estimulante oportunidade para fazer avançar nossa disciplina.
Ao mesmo tempo que aproveito este momento para saudar a realização desse encontro - tão longamente adiado - penso ser oportuno destacar algumas questões que possivelmente nos ocuparão nos próximos anos. O Congresso do Rio, afinal, marca também o início da segunda administração latino-americana da IPA, e a primeira brasileira, e estaremos todos envolvidos numa desafiadora tarefa conjunta.
Assim, gostaria de compartilhar, brevemente, com os leitores da Revista de Psicanálise da ABP uma série de indagações, cada uma das quais capazes de constituir ou já constituindo o que poderíamos chamar, num sentido amplo, os traumas nossos de cada dia.
Qual o estado atual de nossa teorização? Em que medida é possível desenvolver um diálogo entre as diferentes teorias psicanalíticas ou escolas de pensamento analítico e suas múltiplas interseções? Será conveniente estudá-las comparativamente ou estimular o aprofundamento de cada uma? Como evoluem as idéias psicanalíticas em cada região? Como se transformam seus paradigmas? Em que medida conseguimos ouvir a outra teoria, que não a nossa? Algumas vezes, temos a impressão de que o seguidor de uma linha teórica recita seu mantra e queda satisfeito, sem tentar o afanoso trabalho de entender a lógica interna da(s) outra(s) visão(ões). Por outro lado, observa-se um crescente movimento de busca do diálogo e da interlocução. Até que ponto poderão ser atingidos?
A clínica psicanalítica, como um todo, apresenta hoje maiores possibilidades que no passado. Mas deixa abertas várias questões: é possível avaliar a competência clínica em psicanálise? São convenientes e/ou necessários estudos de efetividade? Em que consiste - na era das disciplinas baseadas em evidências - a evidência psicanalítica? Devemos aderir a um estrito modelo único de formação ou reconhecer que dispomos de diferentes modelos, cada um com sua coerência interna? Não terá chegado o momento de voltarmos nossa atenção, nossos esforços e nossa libido institucional para o estudo e para uma nova e intensa ênfase na prática analítica e sua teorização? Não estaremos necessitados - como área prioritária - de mover nossa associação internacional em direção a um amplo e continuado programa científico, que tenha a clínica psicanalítica como ênfase, e o reconhecimento de que este é o locus que afinal definirá nossa relevância na cultura e nosso futuro como disciplina?
E como levar adiante nossa relação com a cultura? Adaptando-nos à “sociedade do espetáculo” e tornando a psicanálise mais “light” e simpática, mantendo uma olímpica pureza metodológica e clínica ou tentando encontrar um equilíbrio entre o que nos é específico e uma fala capaz de ser entendida? Como devemos conversar com a universidade, com a psiquiatria, com a psicologia e com as ciências humanas? Ainda seremos capazes de um diálogo entre saberes diferentes, mas necessariamente interdependentes?
E quanto às nossas instituições? Um já relativamente longo percurso institucional anima-me a ousar esta questão: estará o desafio nos aspectos organizacionais e administrativos ou nosso grande problema consiste em encontrar maneiras de lidar com o narcisismo das pequenas diferenças? Como acolher, conviver, tolerar, não ser levado a respostas submissas ou retaliatórias face ao reiterado e “sagrado direito da queixa” de que falava o saudoso Fernando Guedes? Como manter o clima institucional dentro de um equilíbrio que permita o continuado convívio e a produção de conhecimento psicanalítico ?
E, por falar nisto, por que e para que necessitamos de uma instituição psicanalítica internacional tão complexa, distante, confusa, cara e aparentemente inoperante face às nossa necessidades imediatas? Ou mesmo para que nos servem as instituições nacionais e regionais? Não temos aquilo de que necessitamos em nossas sociedades, em nossas análises e supervisões, nossas comissões, nossos grupos de estudo? O que nos importa o que ocorre com a psicanálise numa província distante? Não somos capazes de matar um mandarim, com um simples desejo? Por que examinar o que acontece em culturas analíticas vetustas ou naquelas que recém balbuciam suas primeiras associações livres? Acaso somos os guardiães de nosso irmão?
Ou estaremos todos mais interdependentes do que gostaríamos de admitir?
Ou necessitamos da tradição e dos consensos possíveis entre distintas regiões e culturas para proteger nosso legado comum?
Ou o que ocorre nos confins da Europa, da América do Norte ou da América Latina hoje, poderá ocorrer em nossa casa amanhã? Ou vice-versa?
E por que não podemos estreitar laços e cumplicidades, aprender a ouvir outros idiomas teóricos, clínicos e culturais, e ampliar uma rede que nos acolha e anime quando caímos no espaço sem fim da angústia e do desamparo?
Não seremos todos, afinal , cada um ao seu modo, os guardiões de nossos irmãos e de nossa mãe-irmã-amiga, a psicanálise?


Cláudio Laks Eizirik

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Por que uma conferência internacional de psicanálise?
Elias M. da Rocha Barros*


Qual a motivação de 2200 analistas, provenientes dos quatro cantos do mundo, para se reunirem nesta conferência internacional?
Além do prazer gregário de nos encontrarmos, de revermos amigos que vivem em cidades distantes, com os quais temos poucas oportunidades de conversar, é preciso algo mais que justifique tal dispendio de energia e de recursos.
Acredito que se trate de um misto de preocupação com o estado atual do nosso conhecimento e de uma excitação, permeada de entusiasmo maior ou menor quanto ao futuro de nossa disciplina. Creio que atravessemos uma crise em nosso campo, que tem tudo para ser salutar, mas que, se não for bem elaborada, pode atolar a psicanálise num sem fim de repetições de teorias já conhecidas e apresentadas em linguagens herméticas, senão absolutamente esdrúxulas, ou seja, um sem fim de reiterações do mesmo.
Será que a psicanálise está requerendo uma revisão de seus fundamentos, como Jean Laplanche sugere? A julgar pelas contribuições apresentadas a esta conferência, penso que sim, ainda que as tentativas de fazê-lo, pelo menos em tais trabalhos, sejam incipientes. Contudo, percebe-se, na imensa maioria dos trabalhos, uma tentativa, não necessariamente bem sucedida, de buscar novos caminhos sem perda do rigor, um aspecto positivo desse nosso encontro. Essa busca se apresenta nesta conferência mais como um meio de abertura de novos campos de aplicação da psicanálise do que como formas de aprofundamento e renovação conceitual, que também são visivelmente necessárias. A psicanálise, vista a partir dos trabalhos dessa conferência, está mais voltada para a cultura e para o social. De tanto falarmos na crise, parece ter finalmente chegado o momento de a psicanálise se preocupar com ela e se voltar para a cultura em que se insere, para os grandes traumas sociais (genocídios, miséria, exclusão social, violência doméstica, violência contra a mulher, desestruturação da família). Este é um primeiro movimento para fora, antes de nos voltarmos para nós mesmos e examinarmos criticamente a nossa teoria da clínica.
Talvez grande parte da insatisfação sadiamente presente provenha de um fenômeno que a analista italiana Stefania Turillazzi Manfredi (1998) caracterizou como As certezas perdidas da psicanálise clínica, título de um ótimo livro seu.
A teoria de que dispomos não dá conta, nem conceitua, ainda que descritivamente, da riqueza do fenômeno clínico que observamos, o que não quer dizer que nossa clínica não seja rica ou efetiva.
Neste contexto é que o tema desta quadragésima quarta Conferência Internacional de Psicanálise foi definido. Inicialmente foi sugerido que a reunião abordasse o tema “Os novos desenvolvimentos da psicanálise”. Nessa altura, Marcio Giovaneti propôs que não discutissemos os desenvolvimentos isoladamente, um tema muito geral, mas a questão do trauma. Este serviria de fundo para a discussão dos novos desenvolvimentos. Marcio me disse que o exame do conceito de trauma levaria a uma revisão profunda de nosso campo por parte das várias escolas, ou, melhor dizendo, mais de acordo com o estágio atual de nossa disciplina, das várias “famílias psicanalíticas”. Levada à primeira reunião em Nova York, a sugestão foi acolhida entusiasticamente. Werner Bohleber, co-presidente para a Europa, estava trabalhando em vários projetos de pesquisa que envolviam a problemática do trauma, tanto a nível conceitual quanto de intervenções em comunidades profundamente afetadas por tragédias. Robert Galaztzer Levy, presidente do comitê e representante da América do Norte também acolheu bem a sugestão, acreditando que o tema de fato permitia uma revisão conceitual ampla e representava uma abertura para um conjunto muito grande de intervenções de ordem comunitária influenciadas ou totalmente guiadas pela abordagem psicanalítica. Abel Fainstein e eu, co-presidentes pela América Latina, mais afeitos à clínica, pensávamos que realmente seria uma boa oportunidade de revermos nossa clínica a partir desse conceito fundante da psicanálise clínica. De que modo vemos o trauma, hoje? É preciso enfatizar que tudo isto acontecia tendo como pano de fundo o desassossego mundial produzido pelo ataque terrorista às torres gêmeas americanas.
A questão cultural ou sociopolítica do momento apontava para a importância de retomarmos o exame da chamada abordagem cultural de Freud. A cultura, afinal de contas, como Leopold Nosek tem acentuado entre nós, é o celeiro no qual colhemos material para a elaboração de nossas representações mentais e culturais, que fornecem matéria para nossos “sonhos” e sua elaboração. O tema “Trauma: novos desenvolvimentos”, neste contexto, dá oportunidade de examinarmos nossa clínica, suas limitações com relação à teoria de que dispomos para pensá-la, novos campos de aplicação da psicanálise e o processo de elaboração mental, ao nível da nossa produção cultural.
A enfâse desta conferência está posta, portanto, na necessidade de debates mais interessantes e vibrantes, que dêem conta da complexidade do fenômeno clínico observado quotidianamente nos nossos consultórios, e do impacto das grandes transformações culturais pelas quais estamos passando.
Nosso objetivo, ao nos reunirmos numa conferência internacional, não pode ser de homogeneizar nossas concepções ou teorias analíticas – somos pluralistas por natureza - mas de fazer avançar nossas reflexões sobre o que observamos. Buscamos, penso, ângulos comuns de observação de diferentes experiências, de modo que possamos conversar sobre o que apreendemos. Nosso objetivo não é avaliar que abordagem ou escola é melhor, mas compreender a natureza das problemáticas geradas e das respostas fornecidas pelos diversos pontos de vista, para que possamos estabelecer um debate profícuo e uma troca de opiniões verdadeira.
Este confronto com nossas limitações, bastante evidenciado no campo da aplicação ao social, talvez promova uma reconsideração dos nossos pontos de vista. Poincaré (citado por Manfredi, 1998) dizia: “As boas teorias são flexíveis”. Elas triunfam sobre as objeções sérias, e o fazem transformando-se. As objeções não servem para invalidar as boas teorias, mas para que estas possam desenvolver toda as suas potencialidades”.
Outro campo que será contemplado nesta reunião é o da relação das neurociências, suas descobertas, e sobretudo de seus modelos da relação mente-cérebro, com a psicanálise. Kristeva coloca um problema interessante em relação à questão: “Que características da palavra interpretativa podem entrar em ressonância com o destino simbólico do sujeito, para tocar até mesmo seu substrato biológico e modificá-lo?” Esta abordagem, creio, nos oferece uma possibilidade de reflexão que coloca o biológico e o mental psicológico na perspectiva justa, sem ignorar o cultural.
Estamos visivelmente diante de uma palavra interpretativa com características próprias, que a transformam em algo mais do que meras palavras. Que características são essas? Elas derivam de um tipo especial de escuta, que denominamos até aqui de psicanalítica, muito distinta da escuta do senso comum.
A situação analítica sempre está ameaçada de se transformar numa situação real. O instrumento metodológico contra esta possibilidade é a interpretação. Esta tem a função primordial de zelar pela manutenção das condições de observação do inconsciente, além da de possibilitar mudança psíquica. A definição das características centrais da situação analítica é objeto de várias contribuições.
No que tange ao plano educacional, da formação de novos analistas, vários colegas examinam a questão dos diferentes modelos de formação analítica. Nos últimos cem anos, a psicanálise procurou lidar com a questão da prática clínica e do preparo teórico por meio de um processo de descolamento do senso comum apoiado no conhecido tripé de Eitington. E, deve ser dito, apesar de todas as críticas a este modelo, não conhecemos nenhum modelo realmente novo que o substitua, bem como, em conseqüência, nenhuma sociedade que o tenha abandonado. O que tem variado, é a ênfase dada a cada uma das pernas do tripé, com relação às outras duas, e às suas formas de interação. Há sociedades, por exemplo, que deslocaram o centro da formação para o processo de supervisão.
De início, este modelo propunha uma imersão total no processo analítico, através da concomitância da análise didática com as supervisões e com a participação dos seminários teóricos e clínicos. Esta imersão proporcionava a oportunidade de se diferenciar o propriamente analítico de outros níveis de abordagem, alguns mais próximos do senso comum e mais afeitos à psicologia. Esta concomitância de experiências, que garantia sua unidade e especificidade, foi sendo abandonada aos poucos, pelas mais variadas razões. Embora a referência ao tripé de Eitington continue a ser mencionado e evocado, perdeu-se sua natureza específica, e, em alguns casos, o ambiente propício ao descolamento do senso comum dissolveu-se no ar. A grande novidade, hoje, talvez fosse o retorno a esse clima de imersão total no psicanalítico. O modus faciendi ficaria por conta da elaboração dos participantes da conferência.
Algo também deve ser dito com relação ao fato desta conferência estar se realizando no Brasil. No que diz respeito á formação teórica e clínica dos analistas da América Latina, creio que tenhamos uma situação sui generis, que nos caracteriza culturalmente, e que pode ser muito frutífera.
Tendo vivido em diversas culturas e instituições psicanalíticas (francesa, inglesa, brasileira) e de continuar a trabalhar com colegas de outras regiões do mundo, creio que uma característica importante da cultura psicanalítica latino-americana é a produção de uma síntese original, baseada na nossa capacidade singular de assimilar idéias novas. Na nossa cultura, devido ao medo permanente de isolamento, lemos os autores europeus, ingleses, franceses, italianos, norte-americanos além dos autores nacionais. Nossa identidade é construída com base em empréstimos ininterruptos de culturas de outros continentes e, ao mesmo tempo, é a partir deles que definimos nossas diferenças. Antônio Cândido, a propósito do caráter nacional da literatura brasileira, diz: “Os mecanismos de adaptação, as maneiras pelas quais as influências foram incorporadas, é que constituem a originalidade, que, no caso, é a maneira de incluir em contexto novo os elementos que já vêm do outro”.
Nossa invenção está na maneira de rearticular as perguntas diante do material clínico, a partir de uma maneira própria de assimilar influências. Não rompemos, e nem poderíamos tê-lo feito, com outros centros produtores de conhecimento, mas passamos a nos relacionar com eles de maneira própria, única e original, através das sínteses por nós elaboradas.
Na Inglaterra e na França, os analistas, por terem que enfrentar uma cultura hostil à psicanálise, sentiram-se culturalmente pressionados a manter o grupo unido, o que os levou a enfatizar a necessidade de privilegiar a coerência interna de suas idéias e modelos. Com vistas a conseguir este resultado, tendem a ler e a citar só os autores de seu próprio grupo. Em consequência, produzem artigos, com algumas exceções, claro, que lidam com uma amplitude de idéias pequenas, mas com uma coerência interna muito grande. O material clínico é utilizado centralmente para ilustrar suas idéias de modo geralmente muito coerente, deixando pouca margem para reflexão sobre questões complexas, para as quais ainda não temos respostas. Na América Latina, por sua vez, tendemos a estar menos “preocupados” com nossa coerência interna do que os autores europeus e norte-americanos. Devido, talvez, a um retraimento que data da era colonial, não escrevemos para “convencer”, mas para expressar nossas perplexidades, nossas dúvidas, e aproveitamos para refletir; assim, nossa falta de crença em respostas definitivas se projeta em nossos textos. Nestes, o caráter conjectural, especulativo, às vezes mencionado sem delimitações precisas, freqüentemente expressa nossa perplexidade e não lacunas em nosso pensamento.
Paradoxalmente, é devido a esta liberdade de incorporação de idéias provenientes dos mais diversos contextos culturais e teóricos, com as quais dialogamos para elaborar nossa síntese particular, que necessitamos de critérios bem estabelecidos de avaliação de nossa coerência de argumentação. Ricardo Bernardi (2002) toca nesta problemática, afirmando: “Guiar-se pela lógica do melhor argumento é, definitivamente, mostrar interesse pelo novo que o outro pode me dizer, e estar disposto, se for preciso, a mudar.”
Acredito que temos tudo para uma magnífica conferência.


Elias M. da Rocha Barros

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Variações do conceito de traumatismo:
traumatismo, traumático, trauma.

Thierry Bokanowski


Resumo: Tendo em mente as considerações fundamentais de S. Freud acerca do traumatismo, o autor propõe a diferenciação das palavras traumatismo, traumático, trauma, atribuindo-lhes valências diferentes em relação à organização psíquica e ao tratamento psicanalítico. Com referência à contribuição de Ferenczi, o autor distingue traumas secundários, organizados de acordo com o princípio do prazer/desprazer, desde os traumatismos iniciais que inibem o processo de fusão das pulsões. Um exemplo clínico ilustra este último tópico.


Unitermos: cisão auto narcísica, defusão instintual, destrutividade desesperançada, Hilflosigkeit - desamparo (estado de), dor mental, princípio de prazer-desprazer, angústia primária

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A situação traumática básica
na relação analítica

Raul Hartke


Resumo: O autor procura desenvolver um conceito de trauma psíquico que respeite o núcleo dessa noção freudiana, isto é, um excesso de excitações não processável pelo aparelho mental, mas que também considere as funções e o papel crucial dos objetos na constituição do psiquismo e nas condições traumáticas, bem como leve em conta o posicionamento metodológico de que a relação analítica é o único locus possível de observação, inferência e intervenção do psicanalista. Considera como uma situação psicanalítica traumática básica ou mínima aquela na qual uma magnitude ou qualidade de emoções excede a capacidade de continência da dupla analítica, a ponto de gerar um período ou área de desmentalização no psiquismo de um ou ambos os participantes, de necessitar um trabalho analítico quanto a isso e promover uma significativa mudança positiva ou negativa na relação.
Valendo-se da teoria de Bion sobre a função alfa e das concepções metapsicológicas de Freud e Green acerca das representações psíquicas, apresenta duas formulações teóricas relativas a essa situação traumática, utilizando-as segundo o modelo do “foco alterado” proposto por Bion. Três exemplos clínicos servem para ilustrar o conceito e as formulações teóricas pertinentes.


Unitermos: trauma psíquico, relação psicanalítica, continência, função alfa, representação psíquica, desmentalização, desligamento psíquico, investigação psicanalítica.

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Especificidade da tortura como trauma
O deserto humano quando as palavras se extinguem

Marcelo N. Viñar


Resumo: O autor procura estabelecer a especificidade da tortura – como expressão da violência política e do Estado totalitário – no marco histórico do conceito de Trauma, em psicanálise.
Na presunção simultânea da mente do laço social, os aspectos intra-psíquicos e trans-pessoais do dano se entrecruzam numa trama complexa e singular. O autor aponta a desmontar a idéia de vítima, por estigmatizante e incorreta. O objeto do estudo não é somente identificar as seqüelas e a incapacidade dos afetados, e sim integrar a experiência e o relato a um projeto de vida.
Mais que uma psicopatologia individual, a reflexão aponta - seguindo o eixo freudiano de Psicologia das Massas e Análises do Eu – a estudar os fenômenos da sugestão e hipnose que operam nos grupos humanos em situações ordinárias, e se
exacerbam em condições de crises sociais.

Palavras-chave: campo de concentração, humano, narrativa, política, tortura, trauma, violência, vitima, mundo

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Los degradados, pra fora, pra baixo, morte, o trauma transmitido e infligido, conforme foi encontrado na análise de uma menina de 6 anos.
James M. Herzog


Resumo: O autor descreve a análise de uma menina a partir do relato de duas sessões ocorridas durante o oitavo mês e o terceiro ano do trabalho psicanalítico. São descritos detalhadamente jogos e brincadeiras, fantasias e diálogos deste convívio. O autor conta como vai desvendando com sua paciente os diferentes traumas passados, suas camadas distintas e, ainda, como vai propondo um trabalho de discriminação em meio à dramática turbulência emocional que se estabeleceu na sessão. Relaciona, desta forma, seus jogos e suas fantasias a traumas do passado, vividos pelos familiares e reencenados na sala de análise. O autor destaca duas séries de traumas, a primeira relacionada aos traumas vividos pelos pais da paciente quando tiveram que deixar às pressas seu país de origem em função da situação política que se estabelecera ali e foram obrigados a emigrar para os Estados Unidos. A outra série se refere aos traumas vividos pela mãe e sua família de origem durante o Holocausto e pela família de origem do pai, judeus marranos que aportaram há algumas gerações na América do Sul como `degradados´. Através da revelação gradativa destas diferentes situações traumáticas, tanto na dupla analítica quanto na família, é feito um trabalho com a paciente visando a discriminação entre situações traumáticas passadas e situação atual. Desta mesma maneira é também revelada e esclarecida uma situação de conluio traumático da mãe com a paciente. O resultado do trabalho é libertar a paciente da sobrecarga que havia lhe sido imposta por esta situação emocional familiar descrita, possibilitando assim um desenvolvimento normal voltado para suas reais e genuínas necessidades. O autor aponta ainda para a possilibidade de um trauma inflingido ou transmitido ser de fato ainda somente uma camada encobridora de um outro trauma, este ainda mais profundo e perturbador, exemplificando esta idéia com o caso exposto.

Unitermos:
trauma transmitido, caráter traumático, enactment interativo, enactment, o papel do pai, trauma transgeracional, modulação e organização da agressividade, regulação e desregulação afetiva na família, acompanhamento em análise de criança, legado incestuoso, interação sexualizada, relacionamento erotizado.

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Retraumatização psicanalítica
Alexandre Kahtalian*


Resumo: Este trabalho aborda de forma clínico-teórica os elementos que interferem na dupla analítica, criando retraumatizações. Coloca a dificuldade de se entender que o processo analítico pelo viés da intersubjetividade, confere ao analista uma posição privilegiada no evoluir da análise, ampliando e proporcionando um encontro mais vivo da dupla, com manutenção de assimetria. Também discute a reação terapêutica negativa e a resistência, que se apresentam quando a presença subjetiva do analista não é percebida por ele, e se torna um fator
traumatizante na análise de seus pacientes.

Unitermos:
trauma, retraumatização, intersubjetividade, contratransferência

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Trauma e subjetivação*
José Nepomuceno**


Resumo: O autor apresenta uma articulação entre trauma e subjetivação, apontando que a sexualidade é o elemento que permite esse vínculo. Apresenta, igualmente, por meio da valorização do corpo e do intra-uterino, a possibilidade de que o trauma do nascimento possa ter uma valência psíquica consistente e, dessa forma, ser suporte para a efetiva construção da subjetividade. Em termos gerais, o trauma é visto em sua dimensão pulsional e como condição estruturadora, potencialmente comprometido com a vida. A grande referência teórica utilizada é Freud, cotejado com vários outros pensadores. Uma vinheta clínica é apresentada para ilustrar, parcialmente, as idéias defendidas no trabalho.

Unitermos: trauma, subjetivação, sexualidade, desamparo originário

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Trauma*
Celmy de A. A. Quilelli Corrêa**


Resumo: A autora acompanha a teoria do trauma na obra de Freud com exemplos clínicos e imagens de situações traumáticas contemporâneas, relacionando-os aos vários momentos do pensamento freudiano e ferencziano. Objetivando um resgaste conceitual apresenta-o como necessário para que o diálogo entre psicanalistas se realize com maior precisão e facilidade. Aponta a importância da transparência na exposição clínica dos autores atuais que parecem ter a mesma preocupação.

Unitermos: Trauma, posterioridade, teorias do trauma em Freud, Ferenczi, Thalassa , trauma e ferida narcísica.

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A clínica psicanalítica do trauma
Luís Carlos Menezes


Resumo: O autor faz considerações sobre o trauma na clínica referindo-se a quatro trabalhos previamente enviados pela revista. Destaca a ação exercida por alguém sobre o sujeito e o não-dito ou a recusa em reconhecê-la. Efeitos do trauma, ao se tornarem presentes na situação analítica, precisam ser reconhecidos e acolhidos pela linguagem, condição para serem transformados em memória.
As vinhetas clínicas dos diferentes autores são examinados nesta perspectiva.
Considerações são feitas com relação à violência em grande escala na história recente, discutida em um dos trabalhos, dedicado em particular ao trauma decorrente de torturas. Alguns desenvolvimentos baseados na teoria freudiana do narcisismo são apresentados no prolongamento da discussão sobre o mal do ponto de vista da psicanálise.

Unitermos: trauma, linguagem, genocídio, tortura, narcisismo.

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A teoria freudiana do trauma revisitada
Miguel de la Puente*


Resumo: Numa abordagem freudiana que usa alguns conceitos lacanianos, o autor apresenta os diversos tipos de traumas: os filogenéticos e os físicos, o do recalque primário, os traumas das primeiras identificações e os traumas das psiconeuroses. Elabora depois pontualizações reflexivas acerca da questão do trauma puro; do trauma das psiconeuroses que implicam as teorias da posterioridade e das séries complementares; e sobre o trauma e o complexo de Édipo. Discute também a retomada da teoria traumática a partir das neuroses traumáticas e a questão da pulsão de morte influenciando a teoria traumática para, finalmente, tecer algumas considerações acerca dos efeitos do trauma na clínica dos tempos da pós-modernidade.

Unitermos: conceito de trauma, tipos de trauma, evolução do conceito de trauma, trauma puro, pulsão de morte e trauma.

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A sublimação no tratamento e na teoria
Francesco Conrotto


Resumo: Embora tenha praticamente desaparecido das teorizações psicanalíticas mais recentes, o conceito de “sublimação” continua a ser útil para compreender algumas transformações que se verificam tanto no tratamento analítico como no processo de civilização. O autor, partindo de Freud, propõe a tese de que na sublimação, não são os temas sexuais que são excluídos do conhecimento, mas sim o gozo orgástico do objeto que é substituído pelo investimento da “representação da representação” do objeto, com a finalidade de atingir o seu conhecimento. Essa tese implica que a sublimação esteja estreitamente conectada ao processo de simbolização e à gênese das pulsões sexuais de vida; é lícito, assim, falar de uma “sublimação originária” à qual se segue uma “sublimação secundária”, ligada ao crepúsculo do complexo edípico. O autor considera que essas transformações se reproduzem na situação analítica que, em virtude das regras do setting, torna-se uma situação sublimatória e o próprio analista, como guardião do setting, representa um modelo de identificação na vertente da sublimação.

Unitermos: sublimação originária e secundária, processo de sublimação conectado ao processo de simbolização, situação analítica como situação sublimatória

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