Editorial
João Baptista N. F. França - 499
Os casos-limite: senso, teste
e processamento de realidade
Luís Claudio Figueiredo - 503
Desenvolvimento
do conceito enactment (“colocação
em cena da dupla”) a partir do estudo de configuração
borderline
Roosevelt M. Smeke Cassorla - 521
Entre
neurose e psicose: algumas considerações
sobre os casos fronteiriços na clínica
psicanalítica
Maria Vitoria Campos Mamede Maia - 541
Sonhando o feminino. Um percurso
através do somatizar e alucinar
Cândida Sé Holovko - 557
Casos-limite na adolescência
Raquel Plut Ajzenberg - 581
Algumas considerações
sobre a clínica atual
Altamirando Matos de Andrade Jr. - 593
Reflexões sobre a experiência
de atendimentos de pacientes que poderiam ser descritos
como borderline ou limítrofes
Claudio Castelo Filho - 605
Dois vértices da investigação
de pacientes borderline: a clínica psicanalítica
e a avaliação psicológica. Alice
quebra-vidros
Julieta Freitas Ramalho da Silva e Latife
Yazigi - 621
Redes de sentido: evidência viva
na intervenção precoce com pais e crianças
Mariângela M. de Almeida, Magaly Miranda Marconato
e Maria Cecília Pereira da Silva - 637
A psicanálise e os dependentes
de substâncias psicoativas: onde está
o pai?
Sérgio de Paula Ramos - 649
Transtornos autísticos e espaço
dialógico – breve conversa entre a psicanálise
e o dialogismo
Vera Regina J. R. Marcondes Fonseca, Vera Silvia Raad
Bussab e Lívia Mathias Simão - 679
O psicanalista, a clínica
e o “psicossomático”
Milton Della Nina - 693
Tornar-se uma pessoa: a importância
da resposta afetiva do analista aos sonhos de uma
paciente esquizóide que sofreu privações
Franco Borgogno - 711
O trabalho psicanalítico
com adolescentes, hoje
Virginia Ungar - 735
Resenhas
Uma estrela pela fresta – sobrevivência
de Gucia: o holocausto e depois
Carlos Doin - 751
Melanie Klein – estilo e pensamento
Elisa Maria de Ulhoa Cintra e Luís Cláudio
Figueiredo - 756
Toxic Nourishment
Michael Eigen - 758
André Green e a Fundação
Squiggle
Jan Abram - 761
Editorial
Escrita e trabalho psicanalítico, hoje
Com este número nossa equipe editorial se despede
de seus leitores.
Publicamos 28 edições, abrangendo artigos
originais; traduções de analistas estrangeiros
de renome (sendo algumas de trabalhos inéditos
enviados à Revista); resenhas e lançamentos;
entrevistas, contrapontos, supervisões comentadas;
publicação dos trabalhos das Mesas e
dos artigos premiados dos três últimos
congressos brasileiros de psicanálise, assim
como dos trabalhos pré-selecionados dos Congressos
da IPA.
Promovemos reuniões com os editores regionais
da Revista - por ocasião dos dois últimos
congressos brasileiros - quando avaliamos um artigo
ao vivo. Publicamos o artigo e os comentários
da reunião de Recife.
Estabelecemos uma parceria com a Sociedade Italiana
de Psicanálise para a publicação
de artigos nossos na Rivista di Psicoanalisi e vice-versa.
Nossa revista também participará de
resenha da Revue des Revues, da Revue Française
de Psychanalyse.
Um ano particularmente frutífero da nossa gestão
foi o de 2000, quando a RBP organizou e participou
de quatro eventos, nas cidades de Campo Grande, Recife,
Brasília e Porto Alegre, onde apresentamos
um número comemorativo dos 100 anos de psicanálise,
promovendo uma discussão, aberta ao público,
sobre os trabalhos de nossos autores.
A história da psicanálise precedeu,
de um bom tempo, a história da escrita analítica.
A psicanálise começou como um ramo da
clínica então chamada de neuro-psiquiátrica,
que estudava o sofrimento psíquico de homens
e mulheres, pois se acreditava que a etiologia desse
padecer seria de fundo orgânico. Naqueles tempos,
o mundo era outro; o ser humano com seus desejos,
proibições e incongruências, tinha
algo de familiar a nós e também algo
bastante diferente, se pensarmos com o viés
de hoje.
Naqueles idos, surgiam as primeiras comunicações
escritas. A tiragem de A interpretação
dos sonhos era reduzida; sua repercussão –
só aos poucos se estabelecia. O establishment,
no caso a sociedade médica de Viena e a sociedade
em geral, receberam com perturbação
as idéias do jovem pesquisador.
Ao nos aproximar de Freud e seu tempo, começamos
por uma identificação romântica
e idealizada. A linguagem escrita, menos que a tradição
oral (como a que se observa na situação
do divã analítico), permite crítica
e apreciação mais contidas, com uma
subjetivação mais trabalhada.
Em 1919, um Freud maduro e convicto de suas idéias,
já havia deixado para trás, há
algum tempo, sua ambição de correlacionar
a psicanálise nascente com a medicina e especialmente
com a neurologia; definiu-nos a psicanálise
em torno de três vértices: a clínica,
base do edifício e de nosso compromisso profissional;
um método particular de acesso e pesquisa,
sua descoberta original; e um estudo sistemático
das conclusões obtidas. O campo de trabalho?
A natureza humana (curiosamente, o título de
uma compilação póstuma de obras
de Winnicott).
Teoria e clínica; esta o alicerce daquela,
caminharam lado a lado, registradas por um número
crescente de publicações.
Ocorriam as reuniões das quartas-feiras, os
registros dos primeiros congressos, a Imago, revista
editada por Hans Sachs; a publicação
dos primeiros trabalhos psicanalíticos, as
valiosas cartas a amigos privilegiados, cuja descoberta
nos têm enriquecido tanto nos últimos
anos.
A partir de 1919, começaram a circular revistas
psicanalíticas de prestígio: o International
Journal of Psychoanalysis, a Revue Française
de Psychanalyse, o Journal of the American Psychoanalytical
Association, a Revista de Psicoanálisis, nossa
irmã da Argentina.
Nosso início na área editorial foi relativamente
precoce, mas efêmero no movimento psicanalítico,
com a publicação tentativa de Durval
Marcondes nos anos 20. Mas desde 1967, a Revista Brasileira
de Psicanálise se inicia e se firma.
A psicanálise não é uma ciência
que segue um modelo médico (isto correspondia
a um modelo positivista, do Freud inicial). Poderíamos
encará-la como uma das “ciências
das humanidades”? Bastaria substituir o método
da ciência dura pelo da hermenêutica?
Mas como incluir o observador, sujeito, em boa parte,
às mesmas emoções do observado?
Nos últimos anos, teoria e clínica se
encaminham para uma perspectiva não centrada
no sujeito e sim na dupla; o conceito de contratransferência
em ascensão, intersubjetividade pensada em
diversos continentes.
A hermenêutica, por sua vez, como se articula
com a teoria das transformações?
Observamos nosso paciente, em uma câmara quase
isolada, durante um longo período, de caráter
processual. Nossas supervisões, que constam
de um trabalho sui-generis, se aproximam da clínica.
Todas essas atividades são sujeitas às
transformações. Mas há invariantes.
Como registrar tais fatores de maneira razoável?
Bion propôs, no início de suas publicações,
que sua contribuição seria mais no campo
da epistemologia, do que o acréscimo de teorias
novas, além de dar ênfase a uns textos
básicos que muito valorizava, como “Os
dois princípios de funcionamento mental”
de Freud e as idéias de Melanie Klein sobre
identificação projetiva e sobre as posições
esquizoparanóide e depressiva.
Anos mais tarde, evoluindo em seus pontos de vista,
esse autor fala em transformações na
apreciação de uma realidade psíquica
ou seu registro; em outro trabalho, fala de uma aproximação
científica, estética e mística
à psicanálise. Já estamos a léguas
do método médico original de Freud;
e algo distante do “Princípio de continuidade
genética” de Susan Isaacs, base da metodologia
científica kleiniana.
Voltando à comunicação entre
colegas, podemos dizer como o poeta, que, assim como
“navegar é preciso”, escrever também
é preciso, para dar conta e substrato à
clínica, o registro constituindo condição
de lastro e progresso.
Como escrita psicanalítica, os estilos se multiplicam;
desde os quase cartesianos, até o recurso às
obras literárias, tão elucidativas,
às vezes, e tão incongruentes, em outras.
Oscilamos do particular para o universal, do consistente
para as emanações quase delirantes;
navegamos por mares diversos em nossa disciplina.
Um ponto essencial para uma publicação
psicanalítica como a nossa é o representado
por um pluralismo teórico. Assim devem entender
nossos consultores; mesmo que particularmente tenham
suas preferências, requerem disciplina e critério
para visualizar a linha mestra, coerência e
a criatividade de cada artigo.
Quanto à enorme dificuldade em escrever e às
dificuldades em fazê-lo com adequação,
penso em contribuições como as de David
Tuckett e Ronald Britton.
Tucket nos propõe a avaliação
tipo peer review, e ressalta a importância da
coerência interna de um texto; Britton fala
da dificuldade em publicar, incluindo a questão
do narcisismo do analista e do conflito (edipiano)
de autoridade.
Como muitos colegas, penso que a clínica é
nosso alicerce para toda a construção
teórica, bem como para as outras vertentes
da psicanálise: o método (via de acesso
ao inconsciente) e a compreensão da natureza
humana.
Com as enormes modificações sociais,
econômicas e culturais da última metade
do século XX, temos que pensar se nossos pacientes
são os mesmos, e em que medida a psicanálise
pode permanecer sem modificações. O
ponto mais crucial se refere a problemas de tempo,
distância, e tipo de mentalização;
passamos de um modo de pensar analógico para
uma tendência cada vez maior rumo a um tipo
de raciocínio binário.
Como publicamos no artigo referido do Congresso de
Recife, estamos diante de novos sintomas ou novas
patologias? Precisamos de uma nova metapsicologia?
Privilegiamos a clínica, neste último
número sob nossa responsabilidade.
Desde nosso número anterior, estamos publicando
artigos sobre patologias da atualidade; pacientes
narcisistas, borderlines, psicossomáticos;
distúrbios alimentares, patologias do vazio.
A adolescência se presta como exemplo palpável
das mudanças de gerações.
Neste número, destacamos vários trabalhos
principalmente clínicos sobre patologia borderline.
Há artigos teórico-clínicos que
abordam questões metapsicológicas de
maneira bastante criativa. Outros artigos são
mais especificamente clínicos, refletindo um
modo atual de trabalhar. Apresentamos trabalhos com
vértice winnicottiano, bioniano e privilegiando
intersubjetividade e enactements. Apresentamos ainda
descrição e entendimento bastante sensíveis
da problemática adolescente. Trazemos aspectos
de pesquisa, como a de intervenção precoce,
e a difícil e ousada aproximação
à linguagem e comunicação autista.
Apresentamos interfaces da psicanálise com
a psiquiatria, no que se refere ao tratamento psiquiátrico
e psicanalítico de pacientes drogados e o trabalho
com pacientes esquizofrênicos em setting institucional,
em um trágico caso clínico. Abordamos
o fenômeno psicossomático e o modo de
pensar psicossomático.
Para terminar, quero assinalar agradecimentos. Indicados
por sucessivas Diretorias da SBPSP, contamos com o
aval e o apoio de diversas Diretorias da Associação
Brasileira de Psicanálise, participando do
seu Conselho Diretor.
Agradeço aos Editores e Co-editores Regionais
que me acompanharam nesses sete anos e aos Consultores
anônimos das diversas Sociedades, indispensáveis
para nosso trabalho. Com eles e com nossos autores,
foi possível desenvolver um proveitoso diálogo
editorial.
Quero agradecer em particular aos colegas que me acompanharam
mais de perto, no Conselho de Assessoria Editorial.
Estiveram conosco desde o início até
o fim da nossa gestão, Sandra Maria Gonçalves,
Maria Cecília Pereira da Silva, Daniela Sitzer,
Eunice Nishikawa e Inês Sucar. A elas, companheiras
de trabalho e afeto, meu reconhecimento. Diversos
outros colegas nos acompanharam em parte de nosso
percurso, aos quais devo também meu carinho
e reconhecimento; atualmente nossa equipe conta também
com o trabalho de Maria Celina Anhaia Melo, Norma
L. Semer, Joyce Kacelnik, Ana B. Hoffman, Cleusa M.
G. Nery e Marina R. Miranda. Particular-mente importante
é o trabalho silencioso das revisoras, como
Eunice e Celina (que substituiu Maria Thereza França).
Estiveram ainda em nossas reuniões e muito
próximas ao CAE, Teresa Rocha Leite Haudenschild
e Maria Stela de Godoy Moreira, Editora Regional e
Co-editora pela SBPSP, muito contribuindo para nossa
programação.
A dedicação e a competência de
nossa produtora gráfica, Mireille Bellelis
Rossi, também nos acompanhou todos esses anos
de edição da Revista, sob nossa responsabilidade.
Quero ainda agradecer ao incentivo permanente de Neyla
Regina França e de nossa atual secretária,
Luciana Gobbato.
Aos colegas que vão nos suceder na editoria
da Revista, desejo uma proveitosa gestão, plena
de iniciativas e realizações.
João
Baptista N. F. França
Editor
Os
casos-limite: senso, teste e processamento de realidade
Luís
Claudio Figueiredo, São Paulo
Pacientes borderline
não só realizam testes de realidade
como podem fazê-lo de forma repetida e freqüente.
No entanto, carecem de um senso de realidade e têm
dificuldades no processamento da realidade. O presente
trabalho procura sugerir algumas hipóteses
para esta situação, enfatizando a importância
da posição depressiva e da travessia
do Édipo para o estabelecimento de um senso
de realidade capaz de propiciar o processamento de
realidade continuado e tornar os testes de realidade
tanto mais satisfatórios quanto mais raros
e desnecessários. Em acréscimo, é
proposta uma direção para o tratamento
analítico destes pacientes.
Unitermos
Borderline, teste de realidade, senso
de realidade, posição depressiva, Édipo.
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Desenvolvimento
do conceito enactment (“colocação
em cena da dupla”) a partir do estudo de configuração
borderline
Roosevelt M. Smeke Cassorla, Campinas
O trabalho tem por objetivo discutir aspectos relacionados
às funções de enactments (“colocação
em cena”) no trabalho analítico. Após
uma revisão do conceito, descreve-se uma paciente
borderline, em que o processo analítico desenvolvia-se
aparentemente de forma produtiva. Em conseqüência
de uma mudança no setting ocorre um enactment
intenso, agudo. Sua compreensão permite a percepção
de que se havia formado uma colusão inconsciente
da dupla analítica, constituindo-se uma relação
simbiótica entre a paciente, o analista e sua
família, como um enactment crônico. Esta
colusão impedia que se abordassem fantasias
inconscientes altamente destrutivas e situações
traumáticas arcaicas. A compreensão
do enactment permitiu que o conluio se desfizesse.
Propõe-se que, além do aspecto resistencial,
esse conluio possa ter servido para fortalecer os
mecanismos mentais da paciente e a confiança
no trabalho analítico, o que demandava um certo
tempo. O enactment agudo surge, desvelando o conluio,
quando paciente e analista se sentem capazes de abordar
os terríveis aspectos relacionados à
situação triangular.
Especula-se que situações similares,
com ambas,colocações em cena”,
podem ocorrer neste tipo de pacientes (borderline),
como parte da história natural do processo
analítico, e sua função é
permitir a revivescência de experiências
arcaicas, na tentativa de poder elaborá-las.
Finalmente se propõe uma classificação
dos enactments em normais, patológicos, agudos
e crônicos.
Unitermos
Colocação em cena da dupla, enactment,
borderline, técnica analítica.
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Entre
neurose e psicose: algumas considerações
sobre os casos fronteiriços na clínica
psicanalítica
Maria Vitoria Campos Mamede Maia, Rio de Janeiro
O presente artigo discute as noções
winnicottianas de tendência anti-social e falso-self
como uma resposta à fluidez da contemporaneidade
enquanto cenário no qual o sujeito moderno
se encontra submerso. Para delinear esse cenário
da contemporaneidade utilizamos como referenciais
Bauman, Julio de Mello, Da Poian, Rassial e Outeiral.
Unitermos
Falso-self, tendência anti-social, borderline,
clínica da contemporaneidade, casos fronteiriços.
Voltar
Sonhando
o feminino.
Um percurso através do somatizar e alucinar
Cândida Sé Holovko, São
Paulo
A autora
pretende demonstrar como a situação
transferencial criou o campo necessário para
a emergência de aspectos fundamentais da feminilidade,
em uma analisanda com intensa dissociação
do feminino em seu self.
Manifestações desse universo feminino
expressaram-se no sintoma psicossomático, no
sintoma alucinatório e na narrativa onírica
evidenciando o caminho percorrido no desenvolvimento
das representações psíquicas.
A partir de um novo vértice a autora enfatiza
que esses sintomas estavam indicando um movimento
de apropriação de experiências
emocionais que não puderam ser anteriormente
vivenciados pela organização somática
e psíquica da paciente.
Baseada na descrição e análise
de uma sessão, procura chamar a atenção
para a distinção entre o termo Feminino
e o termo Feminilidade, que se referem a aspectos
distintos na constituição do ser humano.
No processo de elaboração deste texto,
as concepções de,elemento feminino puro”
e,personalização”, de Winnicott,
foram de grande valia, assim como as teorias de Bion
e de Antonino Ferro sobre o,sonhar”.
Unitermos
Sexualidade feminina e masculina, elemento feminino
puro, elemento masculino puro, somatização,
corporeidade, personalização, alucinação,
sonho, rêverie, elementos alfa, elementos balfa,
objeto subjetivo, Ser e Fazer em Winnicott, espaço
transicional, self, falso self.
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Casos-limite
na adolescência
Raquel Plut Ajzenberg, São Paulo
A proposta
central do trabalho é refletir sobre o chamado,adolescente
difícil”, com um enfoque especial no
problema da dependência química à
qual alguns deles estão submetidos.
Tais jovens pertencem ao grupo que os conceitos de
borderline (casos-limite ou fronteiriços) visam
descrever. Prefiro pensar a noção de,fronteira”
como uma área de espaço irregular, permeável
e plástico, com diferentes relevos. Essas fronteiras
não são estáticas, são
instáveis e oscilam, ora para o mundo externo,
ora para o mundo interno, causando grande instabilidade
e vulnerabilidade do psiquismo.
São indivíduos que estão submetidos
a uma condição externa patogênica,
que dificultam sobremaneira a construção
de uma arquitetura mental que possa lhes dar sustentação
ao longo do seu desenvolvimento. Estes pilares de
suporte do self ficam corroídos e porosos,
afetados por pequenas e constantes pancadas advindas
de um mundo externo inóspito e que fissuram
a estruturação de um arcabouço
mental.
Na parte I é discutida a questão borderline
e casos-limite ilustrando algumas formas de organização
psíquica peculiares. Na parte II, comentarei
observações feitas no atendimento a
jovens adolescentes, particularmente moças,
destacando algumas fontes possíveis das relações
traumáticas do ego-objeto.
Unitermos
Borderline, casos-limite, adolescência,
trauma.
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Algumas
considerações sobre a clínica
atual
Altamirando Matos de Andrade Jr., Rio de Janeiro
A partir da consideração
de certas especificidades na demanda por análise
hoje em dia, o autor busca discutir como tem se empenhado
em ajudar que os pacientes se conscientizem de suas
demandas e também possam aceitar um processo
analítico nos moldes clássicos. A chamada
Clínica Atual é discutida e é
também mostrado por meio de exemplos clínicos
de várias entrevistas, como o autor tem trabalhado
as questões envolvidas na busca por tratamento.
Estas questões estão ligadas ao que
os pacientes desejam como análise e como se
opõem a um setting com um número elevado
de sessões. Nas vinhetas clínicas apresentadas
procura-se mostrar o prévio trabalho que é
feito ao início da análise propriamente
dita.
Unitermos
Clínica atual, demanda por análise,
transferência, contratransferência, entrevista
inicial.
Voltar
Reflexões
sobre a experiência de atendimentos de pacientes
que poderiam ser descritos como borderline ou limítrofes
Claudio Castelo Filho, São Paulo
O autor
se vale de duas situações clínicas
para explicitar seu trabalho com pacientes que poderiam
ser denominados
borderline ou limítrofes. No primeiro caso,
uma paciente muito inteligente e articulada, contudo,
em situação emocional bastante precária,
parece estar fortemente atrelada a um tipo de crença,
sem a qual acredita não poder sobreviver, de
ser um gênio incompreendido e invejado (e, por
conta disso, prejudicado por aqueles que o cercam).
Qualquer aproximação no sentido de apresentá-la
às suas dificuldades é vivida como um
ataque violento e destrutivo do analista. Praticamente
não há brechas que permitam uma conversa
mais realista com ela. Ao mesmo tempo em que se queixa
ininterruptamente do atendimento que recebe, não
falta a uma única sessão e diz precisar
muito do mesmo. A análise se estende por mais
de uma década e a percepção de
que o analista estava se desenvolvendo profissionalmente
desencadeia na paciente uma onda de condutas extremamente
perturbadas que levam a um impasse no atendimento.
No segundo caso, uma mulher parece estar no limite
da deficiência mental, tal a concretude de seu
pensamento. Contudo, é alguém com curso
superior e diversas especializações.
O atendimento, por muitos anos, exige um grande esforço
de paciência por parte do analista devido à
aridez experimentada e a uma esperança muito
reduzida de que a analisanda possa alcançar
algum sentido emocional naquilo que lhe comunica.
Contudo, eventualmente e de modo muito efêmero,
a paciente apresenta insights surpreendentes, tendo
em vista sua condição habitual.
Unitermos
Borderline, limítrofe, sobrevivência.
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Dois
vértices da investigação de pacientes
borderline: a clínica psicanalítica
e a avaliação psicológica. Alice
quebra-vidros
Julieta Freitas Ramalho da Silva, São Paulo
Latife Yazigi, São Paulo
As
autoras apresentam alguns aspectos da clínica
psicanalítica de uma paciente, Alice, com diagnóstico
de transtorno de personalidade borderline ou fronteiriço.
Dois vértices são empregados: a psicoterapia
psicanalítica e a avaliação pelo
método de Rorschach durante quatro momentos
de seu tratamento. Iniciam com uma breve revisão
da literatura sobre pacientes borderline seguida do
caso clínico Alice em que discutem questões
relacionadas ao processo psicoterapêutico psicanalítico
(transferência, contratransferência e
atuações) e ao funcionamento mental
da paciente (mentalização, capacidade
simbólica, percepção das realidades
interna e externa). Um resumo das avaliações
psicológicas é também comentado.
Unitermos
Psicoterapia psicanalítica, pacientes borderline,
pesquisa em psicanálise, Rorschach e psicoterapia.
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Redes
de sentido: evidência viva na intervenção
precoce com pais e crianças
Mariângela Mendes de Almeida, São Paulo
Magaly Miranda Marconato, São Paulo
Maria Cecília Pereira da Silva, São
Paulo
Ao
atender pais e crianças pequenas conjuntamente,
numa proposta de intervenção precoce,
oferecemos uma oportunidade única para ouvir
as comunicações e ansiedades dos pais
sobre seus filhos, enquanto observamos ao vivo a criança
brincando e interagindo com eles. Neste setting, aprendemos
com a experiência, sobre as modalidades relacionais
de cada família, em seu desenvolvimento inicial
e emergente. Nossas intervenções, enriquecidas
por nossas observações, no aqui e agora,
sobre as maneiras de ser da criança, ajudam
a iluminar as percepções dos pais sobre
a criança real, e a facilitar gradativamente
a discriminação da experiência
real com aquela criança em particular, do que
pode ser, muitas vezes, percebido através de
projeções, identificações
inconscientes ou expectativas narcísicas.
Por meio de vinhetas clínicas de dois casos
(um deles filmado), este trabalho discute momentos
em que esta potencialidade expressa-se vivamente,
permitindo que realizações (compreensões)
significativas emerjam (clusters of meaning –
aglutinações de sentido, chamadas aqui
de redes de sentido). Com base nos referenciais teóricos
de W. Bion, D. Winnicott e S. Lebovici, pretende-se
detalhar e descrever a natureza e a constituição
dessas redes de sentido, assim como refletir sobre
o que parece facilitar suas manifestações,
no setting específico de intervenção
precoce de orientação psicanalítica
com crianças pequenas e seus pais.
Unitermos
Redes de sentido, intervenção precoce,
relação pais-bebê, fenômenos
transgeracionais, identificações inconscientes.
Voltar
A
psicanálise e os dependentes de substâncias
psicoativas: onde está o pai?
Sérgio de Paula Ramos, Porto Alegre
Embora
seja freqüente o consumo de drogas feito por
pacientes em tratamento analítico, a literatura
psicanalítica contemporânea sobre o tema,
principalmente a publicada no International Journal
of Psychoanalysis, é escassa. O presente artigo
revisa as principais contribuições psicanalíticas
dos últimos 100 anos sobre dependência
de drogas e justapõe suas postulações
aos achados dos estudos prospectivos pertinentes.
Destaca-se, nestes pacientes, a persistência
de uma relação objetal simbiotizada
que os mantêm num funcionamento narcisista onde
o uso de drogas é visto tanto sob o ângulo
do prazer que prescinde de objeto, quanto o da falta
onipotentemente controlada. Discute-se as possíveis
participações da mãe e do pai
na gênese desta condição, salientando-se
o comprometimento da função paterna
como decisivo.
Na segunda parte, a partir de material clínico,
o autor discute a compreensão psicanalítica
da dependência química, destacando a
relevância do comprometimento da função
paterna. Também são consideradas as
indicações e contra-indicações
de tratamento psicanalítico para os dependentes
químicos, bem como as peculiaridades técnicas
pertinentes. A conclusão postulada é
que psicanálise pode ser indicada para dependentes
químicos que estejam consistentemente abstêmios,
e, nesses casos, particular atenção
deve ser dada ao processo de dessimbiotização,
facilitado pelo resgate da função paterna.
Unitermos
Psicanálise, estudos prospectivos, dependência
de drogas, função paterna, pai.
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Transtornos
autísticos e espaço dialógico
– breve conversa entre a psicanálise
e o dialogismo
Vera Regina Jardim Ribeiro Marcondes Fonseca, São
Paulo
Vera Silvia Raad Bussab, São Paulo
Lívia Mathias Simão, São Paulo
A hipótese
inicial dos autores é que as interações
precoces face-a-face propiciam um espaço dialógico
que permitirá que um senso de self e outro
seja adquirido, já que no interior de tal espaço
o self simultaneamente define o outro e é por
este definido.
Se, por várias razões, tais interações
precoces forem prejudicadas, o espaço dialógico
pode não se desenvolver, fazendo com que self
e outro estejam em um conflito existencial, que pode
resultar em alguns tipos de transtornos do desenvolvimento.
A partir da transcrição verbatim de
uma sessão psicanalítica de um menino
de 11 anos diagnosticado como tendo um transtorno
autístico, os autores procuram discutir os
déficits dialógicos da criança,
usando as idéias do Dialogismo como um roteiro
para a reflexão. Durante a sessão torna-se
claro como ambos os elementos da dupla têm que
tolerar uma grande quantidade de mal-entendidos, não
saber, correr riscos a ainda assim continuar procurando
um caminho minimamente compartilhado, a fim de não
romper o laço dialógico.
Como tais crianças parecem carecer de experiências
compartilhadas, estar em uma interação
dialógica, apesar de todos os erros de ambas
as partes, parece propiciar um novo tipo de relação,
na qual é construído um senso de self
e de outro mais robusto, assim como um senso de contingência,
agência e sincronia.
Unitermos
Transtornos autísticos, dialogismo, psicanálise
de crianças.
Voltar
O
psicanalista, a clínica e o "psicossomático"
Milton Della Nina, São Paulo
O autor
apresenta suas reflexões sobre o papel das
manifestações psicossomáticas
no âmbito da clínica psicanalítica.
Parte de um substrato conceitual e clínico
apresentado por autores brasileiros, e discrimina
a abordagem da Psicossomática daquela visão
psicossomática que todo psicanalista deverá
ter de seus pacientes, ainda que não sejam
somatizadores. Procura demonstrar como a concepção
que o psicanalista tem de sua prática representa
um fator diferencial na importância dada aos
fenômenos psicossomáticos, emergentes
na experiência emocional compartilhada em análise.
Dando destaque à contratransferência
e à comunicação pré-simbólica
como campos organizadores dessa observação,
irá se aproximar de uma proposta de investigação
do que denomina,psicossomático” na clínica
cotidiana. Com este trabalho procura esboçar
conceitualmente uma posição sustentada
em sua prática clínica, mostrando como
a busca empática na sala de análise
pode privilegiar não apenas o psíquico,
mas também as raízes somáticas
da experiência emocional.
Unitermos
Experiência emocional, empatia, contratransferência,
comunicação pré-simbólica,
somatização, psicossomática,
pesquisa psicanalítica, clínica psicanalítica,
campo analítico, paciente psicossomático.
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Tornar-se
uma pessoa: a importância da resposta afetiva
do analista aos sonhos de uma paciente esquizóide
que sofreu privações
Franco Borgogno, Torino
O que
os paciente mais desejam – como afirmou Ferenczi
em 1932 no Diário clínico e a que Bion
se referiu em Cogitations (1992) -, e que alguns deles
necessitam, é experimentar como o analista
vivencia e elabora na transferencia e contratransferencia
os acontecimentos intrapsíquicos e interpessoais
que estão na origem do seu sofrimento afetivo
e mental. Isto se verifica particularmente nos pacientes
esquizóides que sofreram intensa privação
emocional em sua infância.
Neste trabalho, investigo este aspecto crucial da
relação analítica intersubjetiva,
no tratamento e nos sonhos de uma paciente jovem,
muito silenciosa e apática. Através
do exame detalhado do material clínico obtido
ao longo de varias etapas de sua análise, estudo
como a resposta emocional inconsciente do analista
serve tanto como instrumento de compreensão
como elemento chave de facilitação ambiental
;,um novo começo”, para empregar uma
expressão de Balint (1961), que pode ajudar
o paciente a alcançar um nível de desenvolvimento
e emancipação que não tinha experimentado
até então.
Unitermos
Pacientes esquizóides, sonhos, resposta
afetiva do analista, transferencia e contratransferencia,
novo começo, identificação com
objeto depauperante, crianças que sofreram
privações.
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O
trabalho psicanalítico com adolescentes, hoje
Virginia Ungar
O trabalho se refere à clínica
psicanalítica com adolescentes na época
atual. Primeiramente faz um breve resumo sobre autores
que escreveram sobre adolescência, para em seguida
enfocar o problema atual da adolescência diante
das mudanças em relação a geração
anterior. Finalmente aborda a questão da analisabilidade
do adolescente e também os motivos mais freqüentes
da consulta em pacientes dessa faixa etária
, nos dias de hoje.
Um exemplo clínico é apresentado sobre
uma adolescente que iniciou o trabalho analítico
aos 15 anos de idade, encontrando-se agora no terceiro
ano de análise, para ilustrar alguns aspectos
da problemática adolescente e ao mesmo tempo,
aspectos técnicos característicos do
trabalho analítico com pacientes dessa idade.
Unitermos
Adolescência • técnica •
trabalho com adolescentes, hoje.
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