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Editorial
João Baptista N. F. França - 7


Virginia Leone Bicudo — Uma pioneira
Marialzira Perestrello - 11

O que é a Teoria dos Campos (Curso de New Orleans)
Fabio Herrmann - 15

O inconsciente infinito segundo Bion e Matte-Blanco
Ignacio Gerber - 39

Supervisão: Exercício da função paterna em psicanálise
Martha Maria de Moraes Ribeiro e Maria Letícia Wierman - 59

Comentários sobre o trabalho: “Supervisão: exercício da função paterna em psicanálise”, de Martha M. de Moraes Ribeiro e Maria Letícia Wierman
Cristina López de Caiafa - 77

A comunicação silenciosa: reflexões sobre a linguagem não-verbal em Winnicott
Maria Vitória Campos Mamede Maia - 83

Psicanálise e crianças: um panorama clínico
Mércia Maranhão Fagundes - 95

Fantasia e trauma real: o impacto da identificação intrusiva no processo analítico
Jacó Zaslavsky - 113

O uso da intersubjetividade como suplemento à contextualização do relato do sonho
Regina Helena Manhães Neves - 129

Da identificação projetiva ao enactment: um itinerário para a reparação da cisão corpo-mente
Maria Beatriz Simões Rouco - 147

Representações distorcidas da verdade – o uso astucioso do pensamento
Miguel Marques - 165

Um suporte teórico para a transgeracionalidade: a Teoria do Protomental
Antonio Imbasciati - 181


Resenhas

Bion, da teoria à prática. Uma leitura didática
David E. Zimerman - 203

Sismos e acomodações:
a clínica psicanalítica como usina de idéias
Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho - 209

Interfaces da psicanálise
Renato Mezan - 212

Manual de técnica psicanalítica – Uma re-visão
David E. Zimerman - 219

Un tempo per il dolore. Eros, Dolore e Colpa
Tonia Cancrini - 230

A psicanálise: dos modelos científicos aos princípios ético-estéticos
Arnaldo Chuster e col. - 234

Lançamentos – 241




Editorial

Com a edição deste número estamos iniciando o volume 38 da Revista Brasileira de Psicanálise.
Começamos com uma breve homenagem a Virginia Bicudo, pessoa querida e conhecida de todos os psicanalistas brasileiros. Virginia, que partiu recentemente, deixou saudades não apenas em São Paulo, mas em todo Brasil; além de pertencer ao grupo inicial de analistas que formou a SBPSP, foi fundadora da Sociedade de Psicanálise de Brasília, e era muito conhecida no Rio de Janeiro, pois colaborou na formação de muitos colegas cariocas que vinham a São Paulo para com ela aprender. Marialzira Perestrello testemunha isto com suas palavras amigas.
Apresentamos ao leitor deste número um leque de artigos diversos: alguns mais teóricos, como veremos adiante, outros de feição teórico-clínica; outros ainda relacionados à técnica psicanalítica, como a apresentação que trazemos de um rico material de supervisão de colegas brasileiros presentes ao Congresso da FEPAL, realizado em Montevidéu em 2002.
Este trabalho sobre supervisão, da autoria de Martha Maria de Moraes Ribeiro e de Maria Letícia Wierman, foi levado ao Pré-Congresso Didático daquele evento e publicado na Revista Uruguaia de Psicanálise em 2003; em conversa com a Editora da Revista Uruguaia, Sra. Beatriz de León de Bernardi, mencionamos o interesse em publicá-lo agora em nossa Revista, para os leitores brasileiros, o que foi prontamente acolhido por ela.
Podemos apreciar, nesse texto, diversos momentos de transformação referidas à experiência e registro de diversas duplas: paciente-analista e analista-supervisor; os frutos e a elaboração do trabalho conjunto levado a um congresso de psicanálise, sua transformação e publicação em revista latino-americana e, agora, o retorno desse registro para apresentação aos nossos leitores. O tema é muito instigante, pois trata do exercício da função paterna em psicanálise, com a abordagem conseqüente de configuração triangular. Acompanha o trabalho a participação da psicanalista uruguaia Cristina Lopes de Caiafa, que comentou o trabalho no Congresso enriquecendo o texto com sua apreciação.
Os trabalhos teóricos versam sobre assuntos diversos e que não são muito divulgados entre nós, o que os tornam objetos privilegiados de publicação. Fábio Herrmann nos proporciona excelente oportunidade de lermos artigo bastante didático a respeito da Teoria dos Campos, a partir da focalização do inconsciente e do método psicanalítico.
Ignacio Gerber aborda suas idéias em torno de releitura do inconsciente (segundo as idéias de Freud e de Bion) e as idéias de Matte-Blanco correlacionadas ao assunto; tais articulações, a meu ver, certamente contribuem para a expansão do corpo teórico da psicanálise.
Antonio Imbasciati, nosso já conhecido colaborador, nos traz de Milão a interseção de idéias sobre o Transgeracional de um lado, e, de outro, a Teoria do Protomental, que já tem constituído campo de suas pesquisas. Ele situa a origem da transgeracionalidade nas relações pré-verbais entre o bebê e sua mãe, que geram uma construção primitiva de engramas e determinadas modalidades de funcionamento mental; e traz como hipótese que este mecanismo poderia ocorrer já durante a vida fetal.
A psicanálise de crianças é assunto de grande interesse na história das teorias psicanalíticas ligadas ao desenvolvimento e na sua prática clínica de hoje, basta lembrar as contribuições de Klein, Winnicott, Mahler, Tustin, Bick, Stern e um sem número de teóricos que enriqueceram nossa disciplina a partir desse veio.
A teoria psicanalítica iniciada por Freud, a partir da observação e experiência com adultos, ganhou enorme desenvolvimento com as pesquisas e práticas dos autores acima citados. Em particular, um autor especialmente criativo, que trouxe idéias bastante originais em relação à teoria tradicional foi Winnicott.
Em relação a este último, apresentamos neste número, o trabalho de Maria Vitoria Mamede Campos Maia sobre a visão de Winnicott em relação à comunicação; particularmente a comunicação silenciosa e suas relações com criatividade, abordando também a agressividade primária.
Apresentamos também um trabalho abrangente de Mércia Maranhão Fagundes, que nos traz um panorama de possibilidades clínicas na psicanálise de crianças, privilegiando as contribuições de Antonino Ferro e destacando as características peculiares do processo, nos quais lembra a presença inevitável dos pais da criança.
Alguns dos trabalhos teórico-clínicos que apresentamos neste número se situam entre o exame de fantasias e sua transferência no cenário analítico como em um caso de trauma e fantasias correlatas no qual aparecem manifestações de identificações intrusivas nas relações de objeto da paciente, de autoria de Jacó Zaslavsky; e um outro caso, trazido por Miguel Marques, no qual as atuações, dificuldades de insight e perturbações do pensar tais quais se evidenciaram na transferência, exprimiam representações distorcidas da realidade e situação clínica ligada a perversões.
Junto a esses dois trabalhos, enfocando teoria bastante exemplificada na clínica, temos dois outros de grande densidade teórica e com algumas ilustrações clínicas; no primeiro, Regina Helena Manhães Neves discute o sonho como produção de processos mentais do paciente, tais como se desenvolvem no setting intersubjetivo da dupla analítica; e, em outro, Maria Beatriz Simões Rouco aborda a configuração de enactements conceituados em artigo denso e dentro de um rigor teórico que a autora procura correlacionar com um outro viés, o da cisão mente-corpo.
O segundo número deste volume, já em preparação, vai prosseguir com trabalhos teórico-clínicos; e, nos últimos números deste volume, a pauta vai privilegiar o trabalho com pacientes que ultimamente têm aparecido em nosso consultórios: pacientes difíceis, alguns com patologia borderline e com problemas psicossomáticos.
A Revista está sempre aberta para receber contribuição de membros e candidatos sobre assuntos teóricos, clínico, sobre educação psicanalítica e artigos de interface nos quais o elemento psicanalítico é saliente.
Quanto ao número especial sobre pacientes borderlines, como já foi divulgado em Boletins das Sociedades e através dos nossos Editores Regionais, aguardamos contribuições até setembro, para podermos avaliar os trabalhos e editar o número correspondente.


João Baptista N. F. França
Editor


O que é a Teoria dos Campos
(Curso de New Orleans)
Fabio Herrmann, São Paulo

O presente artigo reúne as duas aulas do curso O que é a Teoria dos Campos, ministrado durante o 43o Congresso da Associação Internacional de Psicanálise, New Orleans, março de 2004, acrescidas de algumas notas, preparadas especialmente para esta publicação. Nele, o autor procura traçar as origens e principais características dessa linha de pensamento psicanalítico, a partir dos problemas fundamentais que a inspiraram: a questão do inconsciente, destacando a idéia de consciência implícita na concepção tradicional de inconsciente, e a de método psicanalítico, enquanto essência do saber e da eficácia clínica da Psicanálise.

Unitermos
Teoria dos Campos • inconsciente • consciência • método psicanalítico • história da Psicanálise.

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O inconsciente infinito segundo Bion e Matte-Blanco
Ignacio Gerber, São Paulo


Tanto na obra de Bion quanto na de Matte-Blanco parece-nos que toda a articulação de conceitos dirige-se à postulação de um conceito (ou não-conceito) totalizante: o infinito – ou O, realidade última, verdade absoluta, natureza divina… o Inconsciente.
Nesse ensaio tentamos problematizar o inconsciente infinito nesses dois autores, relacionando-o com a atitude de “atenção livremente suspensa” de Freud, atitude terapêutica fundante da psicanálise.

Unitermos
Inconsciente • aconsciente • infinito • O • Bion • Matte-Blanco • processo
psicanalítico.

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Supervisão:Exercício da função paterna em psicanálise
Martha Maria de Moraes Ribeiro, Ribeirão Preto
Maria Letícia Wierman, Ribeirão Preto


Partindo da experiência analítica vivida com uma paciente com predomínio de funcionamento de partes primitivas de sua mente, as autoras estudam alguns pressupostos teóricos e técnicos, desenvolvendo questões do uso da “função paterna” em supervisão.
A supervisora demonstra cumprir a função paterna de interdição, de discriminação, de simbolização, quando auxilia a supervisionanda a desfazer a relação diádica (simbiose inicial) que ocorre entre paciente e analista, observando e intervindo nos momentos da sessão em que tal simbiose deixa de ser “construtiva” para ser “obstrutiva”. Expressa-se, de forma metafórica, a imprescindível função paterna na mente da supervisora, dando suporte para o desenvolvimento da mesma função na mente da supervisionanda, durante sua formação, em direção à autonomia.

Unitermos
Supervisão • função paterna.

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A comunicação silenciosa: reflexões sobre a linguagem não-verbal em Winnicott
Maria Vitória Campos Mamede Maia, Rio de Janeiro

O presente artigo articula a importância da agressividade primária e da comunicação silenciosa para a constituição da criatividade no bebê, assim como as conseqüências da intrusão do meio nessa relação de mutualidade mãe-bebê, quebrando a continuidade do ser do mesmo.

Unitermos
Comunicação silenciosa • agressividade primária • comunicação • criatividade

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Psicanálise e crianças: um panorama clínico
Mércia Maranhão Fagundes, Ribeirão Preto

A autora, uma psicanalista, objetiva com este trabalho descrever sua experiência clínica com a psicanálise infantil. Optando por não se ater a explanações teóricas, privilegia o funcionamento do processo analítico com a criança na sua experiência pessoal.
Trabalhando em quatro ou cinco sessões semanais, respeita as especificidades técnicas da análise com a criança.
Em suas observações destaca o fato de a extrema fluidez da mente infantil, evidenciada no desenvolvimento de uma relação analítica, exigir por parte do analista uma postura de maior liberdade e soltura.
Chama a atenção do leitor para o fato de que, também na infância, o processo analítico é constituído de início, meio e fim e nem sempre apresenta interrupções bruscas e traumáticas.
Refere-se, de uma maneira especial, à relação do analista com os pais. Aponta para a absoluta necessidade de um relacionamento harmonioso entre analista e família para a manutenção e desenvolvimento do processo analítico.

Unitermos
Psicanálise infantil • fluidez mental • relação com os pais.

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Fantasia e trauma real: o impacto da identificação intrusiva no processo analítico
Jacó Zaslavsky, Porto Alegre

O autor aborda as situações traumáticas e as fantasias associadas, a partir de identificações primitivas, enfatizando a influência destas na estruturação da vida psíquica, no desenvolvimento do ego e da identidade, nos padrões de relações de objeto, na capacidade de pensar acerca das emoções e na aquisição de capacidades cognitivas e afetivas. Apresenta o material clínico da análise de uma paciente cujo caráter se estruturou com base nas primitivas identificações intrusivas com a mãe, e que se manifestam sob a forma de fantasias inconscientes estruturadas e relacionadas com a vivência traumática infantil. Por meio do conceito de “claustro” procura mostrar as possibilidades de compreensão e abordagem psicanalítica do enclausuramento da paciente no interior da mãe.

Unitermos
Fantasia • trauma real • identificação intrusiva • claustro.

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O uso da intersubjetividade como suplemento à contextualização do relato do sonho
Regina Helena Manhães Neves, São Paulo


O sonho e seu relato, como derivados da realidade psíquica do paciente, requerem elaboração conjunta da dupla analítica.
É foco deste trabalho, o pensamento de que embora o relato do sonho na sessão possa manter o mesmo tema da dramaturgia sonhada – na verdade ele ocorre em outro momento, dentro de outro espaço (o espaço analítico) decorado com um setting próprio (principalmente, espera-se, dentro da mente de cada um que compõe a dupla) sendo, pois, uma outra montagem que busca expressar a experiência emocional daquele momento, sem abandonar os registros da vida do paciente, pelo menos aqueles revelados em análise.
Da análise clássica até hoje houve várias mudanças, tendo este trabalho destacado a utilização da subjetividade do analista como instrumento da técnica.
A psicanálise pensada aqui é a da intersubjetividade – cujo foco está na interação entre diferentes organizações dos mundos subjetivos de analista e analisando.
São apresentados os três primeiros sonhos de um paciente borderline, há seis anos em análise, como também sua ressonância na mente do analista, por meio de devaneios que ajudaram na contextualização dos mesmos.

Unitermos
Subjetividade • intersubjetividade • dialética • terceiro analítico intersubjetivo • transferência/contratransferência.

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Da identificação projetiva ao enactment: um itinerário para a reparação da cisão corpo-mente
Maria Beatriz Simões Rouco, São Paulo

Este trabalho propõe a existência de um vínculo histórico entre os conceitos de identificação projetiva, contratransferência e enactment. Este último é pensado numa acepção ampla como correspondendo à alteração de perspectiva decorrente da superação da cisão corpo-mente, típica do paradigma moderno, de tal forma que ele revela a aceitação progressiva da concretude da realidade psíquica e da inevitabilidade da relação afetiva e intersubjetiva na constituição da situação psicanalítica. Esse conceito implica a realidade psíquica se manifestando em diversos níveis, como experiência, fantasia, expressão corporal e conduta, e que se pode observar conjugações e dissociações entre as áreas da mente, do corpo e da conduta.

Unitermos
Identificação projetiva • enactment • dissociação corpo-mente • paradigma moderno.

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Representações distorcidas da verdade – o uso astucioso do pensamento
Miguel Marques, Marília

O autor desenvolve elaborações que visam abordar o complexo e intrincado conceito de perversões.
A partir da idéia sobre a sexualidade boa e sexualidade má desenvolvida por Meltzer, tendo como pano de fundo as formulações sobre “objetos espúrios” frutos de concepções distorcidas, elaborado por Money-Kyrle, agrega o conceito sobre o “trabalho do negativo” de Green.
Através desses vértices, delineia idéias sobre interações entre as partes destrutivas da mente, que a partir de objetos deturpados e usos astuciosos do pensamento, esvaziam e empobrecem a vida mental e obstaculizam o desenvolvimento cognitivo da personalidade, impossibilitando o alcance de relações de intimidade e o aprender com a experiência.


Unitermos
Perversão • distorcer • deturpar • astúcia.

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Um suporte teórico para a transgeracionalidade: a Teoria do Protomental
Antonio Imbasciati, Roma


Nos últimos anos, muitos autores de orientação psicanalítica principalmente, têm demonstrado que as características básicas da estrutura da personalidade transmitem-se entre as gerações. Observou-se que, além de conteúdos, transmitem-se modos de funcionamento mental. Afirmou-se que a estrutura do inconsciente é transgeracional. Os estudos atuais descrevem que nas relações pais/filhos, e principalmente naquelas entre o cuidador e o recém-nascido, podem ser transmitidos não apenas conteúdos, mas também modalidades funcionais, isto é, estruturas mentais. Os estudos descrevem esses eventos de modo clínico. O autor deste artigo ilustra de que modo a sua Teoria do Protomental, na qual trabalha há muitos anos, pode, além de descrever, explicar também, do ponto de vista psicofisiológico, de que modo e o que é transmitido pela mãe ao feto e ao recém-nascido.

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