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Editorial
João Baptista N. F. França - 5

Da clínica às hipóteses psicanalíticas
Diálogos clínicos com André Green
O caso Bernardo - 7
Da clínica às hipóteses psicanalíticas (contribuição sobre “Bernardo” e apreciações de André Green)
Cecil José Rezze - 27
Comentário sobre o caso Bernardo supervisionado por André Green
José Martins Canelas Neto - 53

Teoria e clínica
Sobre as bases freudianas da psicossomática psicanalítica: um estudo sobre as neuroses atuais
Admar Horn e Miguel Calmon du Pin e Almeida - 69
O psicanalista e sua arte: de místico e cientista todos nós precisamos ter um pouco
Adalberto A. Goulart -85
Genialidade e loucura: reflexões sobre fenômenos de grupo, transformações e senso comum
Claudio Castelo Filho - 99
Repensando a neurose obsessiva à luz das primitivas experiências do self
Paulo de Moraes Mendonça Ribeiro - 119

Estudos interdisciplinares
Corpo e subjetividade: um diálogo da psicanálise com a medicina
Liana Albernaz - 145

Plenárias do XLIII Congresso Internacional de Psicanálise
Entre a fronteira e a rede, anotações para uma metapsicologia da liberdade
Sonia Abadi - 159
Fracasso do tratamento analítico com pacientes suicidas
Glen O. Gabbard - 175
Trabalhando na fronteira e o uso do analista: reflexões sobre a sobrevivência analítica
H. Shmuel Erlich - 191

Resenhas
W. R. Bion Between Past and Future
Parthenope Bion Talamo, Franco Borgogno e Silvio Arrigo Merciai - 207
Normopatia
Flávio Carvalho Ferraz - 218
O psicanalista: hoje e amanhã
Leda Maria Codeço Barone - 224
Criança Enfance
Uma trajetória de psiquiatria infantil
Narrativa Um - 227
Hipocondria – Impasses da alma, desafios do corpo
Rubens Marcelo Volich - 229

Lançamentos - 235

Editorial

As discussões sobre casos clínicos e as correlações teórico-clínicas constituem assunto que desperta grande interesse tanto em reuniões científicas como na sua divulgação em revistas de psicanálise.
Pensamos que as sessões científicas sobre material clínico ou de supervisão, realizadas nas diversas Sociedades do Brasil, podem constituir tema precioso para divulgação por meio de nossa Revista, por traduzirem material vivo, despertando interesse maior do que trabalhos apenas teóricos.
Estamos trazendo ao leitor o material de estudo de três reuniões que a Diretoria Científica da SBPSP organizou em ciclo denominado “Da clínica às hipóteses psicanalíticas”.
Iniciamos com a apresentação de uma supervisão de André Green – que serviu de base para os trabalhos – comentados a seguir por Cecil Rezze e José Martins Canelas Neto, analistas de referencial teórico diverso, contraste que serviu de estímulo para as discussões e o diálogo analítico.
A supervisão transcrita foi realizada na Argentina e publicada na Revista da APdeBA, cujo editor nos autorizou sua tradução para o português e a publicação na RBP.
Além de servir de base para os comentários, a supervisão em si nos pareceu muito rica, à medida que trouxe a visão clínica de Green sobre o material do paciente e sua supervisão, apresentado com uma história inicial, relato da primeira sessão de análise e discussões.
Um dos aspectos que gostaria se destacar no trabalho de Green, é a importância que ele confere à história do paciente, na descrição de um material clínico.
Esta situação ressaltada por Freud para quem “a criança é o pai do homem”, é também importante no material clínico dos analistas kleinianos, como se vê nas discussões de material clínico de Betty Joseph e Elizabeth Spillius, que estiveram entre nós no ano passado, e é procedimento habitual nos casos de discussão clínica que aparecem nas páginas do International Journal of Psychoanalysis.
No material presente, chamou-nos a atenção a fina discriminação dos temas que Green capta no material clínico, utilizando, além de sua experiência e viés que lhe são próprios, conceitos de Freud da primeira e da segunda tópica e da teoria das relações objetais.
O material supervisionado, seja quanto à história ou a sessão que se segue, é visto por Green com detalhes que se prestam a discussão e emergência de outros pareceres.
Nos comentários de Cecil Rezze, o autor estabelece semelhanças e diferenças com o trabalho de Green e seu modo de pensar quanto ao alcance e possibilidades de exercício de supervisão e quanto à abordagem clínica.
Os comentários de Canelas, um colega que teve contato pessoal com Green na época em que o conheceu na França, apresenta, além do exame do texto, uma visão didática, embora necessariamente recortada, das idéias daquele autor.
Nosso número prossegue com diversos trabalhos que perpassam a psicanálise desde suas origens até a situação de fronteira que vivemos – para usar o termo da temática do próximo Congresso Internacional de Psicanálise.
Freud estudou o que chamou de neuroses atuais no início de sua carreira, dando a essas entidades um lugar especial junto às neuroses de angústia. O conceito permaneceu um tanto desfocado nas obras subseqüentes do autor, mas ele nunca o abandonou inteiramente.
No trabalho de Miguel Calmon e Admar Horn, o tema é por eles estudado, relacionando-o à psicossomática e ao que chamaram de estados-limite, situações nas quais não haveria representabilidade, conforme idéias da Escola Psicanalítica de Paris.
Paulo de Morais Mendonça Ribeiro reestuda também os primeiros trabalhos de Freud sobre neurose obsessiva. Paulo Ribeiro correlaciona esta entidade com autores da atualidade, especialmente Ogden e seu conceito de posição autista-contígua, ao trazer um caso clínico extensamente apresentado, revisitando o quadro que Freud descreveu, e que não vem sendo muito estudado por psicanalistas, ultimamente, sendo mais objeto de estudo de psiquiatras comportamentais e psicofarmacologistas.
Adalberto A. Goulart nos fala do ofício do analista que, além de cientista, tem que exercer sua condição com arte, criatividade e outras qualidades que se cristalizam no seu trabalho diário.
Cláudio Castelo Filho nos traz uma correlação entre o que se chama habitualmente de “loucura” e de “genialidade”, usando algumas idéias de Bion para discriminar esses dois estados de mente, dando destaque especial à concepção de senso comum.
Apresentamos ainda neste número uma interface da psicanálise com a medicina, em artigo de Liana Albernaz de Melo Bastos, no qual destaca corpo e subjetividade, biotecnologia e psicanálise, e que poderia figurar com proveito também em revistas médicas.
O XLIII Congresso Internacional de Psicanálise tem como tema, “Trabalhando nas fronteiras” e apresenta, como de costume, suas três plenárias ou artigos referenciais que são publicados nas melhores revistas psicanalíticas de todo o mundo. A RBP sempre tem apresentado aos nossos leitores a tradução para o português de tais trabalhos, que desta vez são de autoria de Sonia Abadi, Glenn Gabbard e Shmuel Erlich.
O artigo de Sonia Abadi, “Entre a fronteira e a rede. Anotações para uma metapsicologia da liberdade” é um trabalho instigante, de grande densidade conceitual, no qual a autora descreve o encontro dos paradigmas de fronteira e de rede (particularizando a Internet), sempre tendo como contraponto a psicanálise e as diversas teorias psicanalíticas.
O artigo seguinte, de Gabbard, focaliza um tipo particular de limite: o tratamento de pacientes suicidas e a enorme ansiedade que tais pacientes despertam no analista, com o perigo de atuações por parte deste no seu empenho em “salvar” o paciente, e conseqüente fracasso no tratamento. No caso relatado, ocorre o uso de sedução por parte da paciente e um acting do analista, situações que são objeto de discussão e discriminação.
O terceiro artigo, de autoria de Erlich, traz como título, “Trabalho na fronteira e o uso do analista: reflexões sobre a sobrevivência do analista”. O autor estuda o momento presente em diversas dimensões, desde o terrorismo (pois ele é israelense e convive com a possibilidade de atentados terroristas), até temas psicanalíticos que coloca como fronteiras, como o limite entre psicanálise e psicoterapia, e a ênfase na constituição do sujeito como temática de interesse atual nas teorias psicanalíticas.
Em seu próximo número, a Revista vai apresentar os trabalhos do XIX Congresso Brasileiro de Psicanálise, a se realizar em Recife, de 1 a 4 de outubro deste ano.


João Baptista N. F. França
Editor


Sobre as bases freudianas
da psicossomática psicanalítica:
um estudo sobre as neuroses atuais


Admar Horn*, Rio de Janeiro
Miguel Calmon du Pin e Almeida**, Rio de Janeiro


Partindo da necessidade de aprender a escutar os estados-limite, os autores buscam na leitura das neuroses atuais as bases freudianas para os esforços de teorização destes novos modos de adoecer, onde o banal ganha destaque todo especial. Trata-se de uma clínica marcada por ritmos, intensidades e pequenos movimentos, que obrigam o analista a colocar entre parênteses, mesmo que temporária e parcialmente, o modelo de aparelho psíquico tal como concebido em A interpretação dos sonhos.
Dentre estes esforços de estabelecimento de uma metapsicologia dos estados-limite, destacam a Escola de Psicossomática de Paris e apresentam seus conceitos fundamentais: regressão somática e desligamento psicossomático.

 

O psicanalista e sua arte:
De místico e cientista todos nós precisamos
ter um pouco


Adalberto A. Goulart*, Aracaju


O autor, iniciando pela sua própria experiência, compara o momento da criação poética ao momento da criação psicanalítica na clínica. Elabora um estudo teórico, tomando como inspiração a mitologia do caos, anterior à criação do mundo e à ordem das coisas. Desenvolve o tema, lembrando trabalhos de importantes autores sobre a compreensão psicanalítica da criatividade. Tenta mostrar a importância do desenvolvimento psicossexual no processo criativo e ilustra com duas vinhetas clínicas e um poema. Procura retomar a discussão sobre a importância da intuição do analista no encontro de inconscientes da dupla no consultório de análise, em conexão com a disciplina da técnica. Conclui, lembrando Oppenheimer, propondo que a posição do analista na clínica deve manter um trânsito constante entre a do místico e a do cientista.


Genialidade e loucura:
reflexões sobre fenômenos de grupo, transformações e senso comum


Claudio Castelo Filho*, São Paulo

O autor se vale do conceito de identificação projetiva de Klein e dos pressupostos de Bion sobre Continente e Contido para desenvolver suas idéias a respeito do gênio e do louco, condições que costumam ser confundidas. O gênio poderia ou não tornar-se um esquizofrênico, em função da sua capacidade ou incapacidade de tolerar as intensas experiências emocionais que são mobilizadas por seu talento para captar as evoluções de “O” (e publicá-las na forma de transformações em K). O esquizofrênico comum, que quase sempre não tem nada de genial, apenas não toleraria qualquer tipo de contato genuíno com as experiências emocionais. A possibilidade de tolerar as angústias mobilizadas pela presença de um gênio em uma comunidade estaria diretamente ligada à condição de robustez e desenvolvimento desta; caso contrário, tenderia a fragmentar-se (tal como na esquizofrenia) ou a sufocar o gênio, destruindo a origem de uma ameaça ao estabelecido, e tendo por conseqüência a impossibilidade de crescimento e evolução. O conceito de common sense de Bion permite um parâmetro fundamental na distinção entre produções de natureza psicótica ou genial.


Repensando a neurose obsessiva
à luz das primitivas experiências do self


Paulo de Moraes Mendonça Ribeiro*, Ribeirão Preto


O autor parte do conceito de “posição autística-contígua” de T. Ogden (1989) para repensar a “neurose obsessiva” e sugerir uma nova compreensão da dinâmica dessa psicopatologia. Conjetura que essa “neurose” seria manifestação de uma catástrofe nos primórdios do desenvolvimento humano.
O modo autístico-contíguo de organizar as experiências do indivíduo parte da concretude sensorial e tece um “assoalho sensorial” (Grotstein, 1987) sobre o qual as experiências do self poderão (ou não) configurar-se. A qualidade das primeiras relações objetais é de suma importância para a estruturação estável desse ‘assoalho sensorial’, uma vez que este se constrói na conjugação da rêverie (Bion) com o holding (Winnicott). Quando há dificuldades nessas primeiras relações, podem surgir falhas no modo autístico-contíguo de gerar a experiência do self. Os sintomas e defesas obsessivo-compulsivas seriam manifestações dos primeiros esforços do bebê no sentido de ordenar e vincular suas experiências sensoriais primordiais.
Diferentemente da concepção mais clássica da “neurose obsessiva”, que a concebia como manifestação de “conteúdos” edípicos mal elaborados na mente do indivíduo, o autor sugere uma mudança do enfoque no sentido de algo mais primitivo: a estruturação de sua mente, ou a construção do seu “assoalho sensorial”.
O autor utiliza material clínico de um paciente (bastante criativo, um poeta) com fortes traços obsessivo-compulsivos para ilustrar as conjeturas propostas.

Corpo e subjetividade:
um diálogo da psicanálise com a medicina


Liana Albernaz*, Rio de Janeiro


O tema deste trabalho é a investigação da tensão crescente entre a prática clínica e o conhecimento biotecnológico da medicina ocidental contemporânea. Para circunscrever esta questão são recortados os conceitos de corpo e subjetividade, categorias centrais da crise paradigmática atual, acompanhando-os através de dois fios condutores: o da ciência moderna e o da psicanálise contrapondo-se suas concepções ontológicas, epistemológicas e antropológicas.
A constituição da racionalidade médica fundamenta-se na ciência moderna. Deste modo, o saber médico toma a doença como um universal e trata o corpo humano como máquina. A amputação de outras dimensões do corpo e o apagamento dos sujeitos geram sofrimento e mal-estar em estudantes, médicos e pacientes com conseqüências éticas.
A psicanálise é chamada a dialogar por ter seu fundamento na experiência clínica. Acompanhando-se o percurso freudiano, apresentam-se as rupturas que a psicanálise faz com o paradigma moderno. Contrapondo-se ao conceito de corpo-maquínico que sustenta o conhecimento biomédico, é apresentado o conceito de corpo-sujeito, construído a partir das formulações freudianas, como fundamental para a prática clínica.
Propõe-se que é possível a coexistência dentro da medicina ocidental contemporânea destas duas concepções antagônicas. Assumir a presença paradoxal na prática clínica do corpo-maquínico e do corpo-sujeito, pode fazer o exercício da medicina mais humano, ético e eficaz.

 

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