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Sumário
 
Editorial
João Baptista N. F. França - 5
 
Artigos
Uma alternativa para o conceito de representação inconsciente: a função expressiva e a constituição do sentido. Sentido e significação
Isaias Melsohn - 7
Horizontes do mundo da experiência: uma alternativa pós-cartesiana ao inconsciente freudiano
Robert D. Stolorow, Donna M. Orange, George E. Atwood - 45
O sorriso do lagarto: biotecnologias e afetos
Liana Albernaz de Melo Bastos - 63
Afeto, somatização, simbolização e a situação analítica
Plinio Montagna - 77
Um Freud anterior a 1900
Marialzira Perestrello - 89
Os pais na anorexia nervosa. Uma abordagem psicanalítica
Gonzalo Varela Viglietti - 97
Elaborando perdas
Marina Trench de Oliveira - 107
Revisitando Sófocles: a trilogia tebana sob a lente transgeracional
Ana Rosa Chait Trachtenberg et al - 129
Electra Cativa. Sobre a simbiose e a ilusão simbiótica entre mãe e filha e as conseqüências para o complexo de Édipo
H. C. Halberstadt-Freud - 143
 
Resenhas
Freud: conflito e cultura
Michael S. Roth - 169
Autism and Personality - Findings from the Tavistock Autism Workshop
Anne Alvarez e Susan Reid - 177
A técnica em questão. Controvérsias em psicanálise: de Freud e Ferenczi a Michael Balint
André Haynal - 182
Bion Conhecido/Desconhecido
Elizabeth T. Bianchedi et al - 191
Le paradoxe de Winnicott
Anne Clancier, J. Kalmanovitch - 202
 
Lançamentos - 207
 
Editorial
Estamos iniciando a publicação de mais um volume da Revista Brasileira de Psicanálise. Dentro da perspectiva do pensamento psicanalítico corrente, queremos oferecer ao leitor, neste primeiro número, trabalhos que constituam configurações alternativas ao pensamento tradicional.
Uma revista de psicanálise contém, preferencialmente, artigos sobre os diversos aspectos da nossa disciplina, geralmente, tendo como pano de fundo ou se reportando a nossos autores e teorias mais consagrados. Tais teorias se articulam com novos desdobramentos, caracterizando pensamento original. Afastamo-nos do tronco principal sem cortar as relações com ele.
Alguns conceitos em psicanálise constituem a base do nosso edifício teórico, como o do inconsciente e do complexo de Édipo, aspectos de simbolização, relação de objeto etc. Pensamos que esses conceitos podem ser revisitados, com a apresentação de uma nova mirada.
Afetos, psicossomática, modos de expressão e de representação, são temas que aparecem em vários artigos deste número; participam da constituição do sentido que é ressaltada nos primeiros trabalhos, em abordagem teórica e também em viés teórico e clínico.
Nos dias de hoje, vivemos uma revolução dos meios tecnológicos, inclusive daqueles aplicados à biologia; numa época de clones e de pesquisa sobre o genoma, a psicanálise também é convocada a levar em conta as evoluções de nosso tempo e refletir sobre as mesmas, em sua relação com os afetos, os quais constituem sempre o núcleo de nossos interesses.
Freud, inovador, teve a ousadia de pensar configurações alternativas em uma época dominada pelas ciências naturais e pensamento positivista. Sua abordagem da linguagem da histeria, do início de sua carreira, brotou de uma criatividade, na qual curiosidade, destemor e persistência se compuseram para nos legar tudo que veio depois, com o edifício teórico que ainda tanto admiramos e do qual nos nutrimos. Pensando no trabalho com crianças (e a interferência dos pais), recordamos que Melanie Klein também inovou em suas configurações, as quais partiram do pensamento de Freud; mas seu pioneirismo na técnica de análise de crianças e seu senso de observação permitiram descobertas e o advento de propostas que articularam pontes entre a teoria pulsional e as relações de objeto, como na questão das posições e da elaboração do luto.
Abordamos também o tema tão complexo, e ainda hoje misterioso, da anorexia nervosa; além da pesquisa teórica calcada em termos estritamente psicanalíticos sobre fantasias que parecem tão afastadas do bom senso e da observação, um outro vértice leva em conta a realidade, a constelação e a dinâmica familiares. Isto nos reporta ao Congresso Internacional de Psicanálise, do qual estamos nos aproximando, e cujo tema é "Psicanálise: método e aplicações".
A influência dos pais não se dá apenas em uma geração; os estudos de Kaës sobre transgeracionalidade são aqui trazidos em um trabalho especulativo e de aplicação de suas idéias em uma leitura da trilogia tebana. O Édipo é também abordado em um dos seus desdobramentos: sua versão feminina, o complexo de Electra, é estudado no trabalho que encerra este número, em seus aspectos de simetria e assimetria com o Édipo.
Este é um ano de Congressos e a Revista estará participando dos mesmos no seu segundo e terceiro números.
Em junho, no número 2 do volume 35, a Revista Brasileira de Psicanálise vai trazer, além de sua programação habitual, as três plenárias do congresso de Nice, que traduzimos para o português, para que os leitores brasileiros se familiarizem com alguns dos temas e propostas do XLII Congresso Internacional de Psicanálise, a ser realizado em julho. Em agosto, vamos publicar o terceiro número do volume 35, dedicado inteiramente ao XVIII Congresso Brasileiro de Psicanálise, a ser realizado em São Paulo, de 5 a 8 de setembro, cujo tema é "O futuro da psicanálise: das construções teóricas às evidências clínicas". A Revista irá publicar as Mesas-redondas do Congresso, e para isto já estamos aguardando o envio das mesmas pelos autores. Dessa forma, poderemos nos preparar para o congresso, com a leitura antecipada de seu conteúdo temático.
Iremos completar o presente volume, no último trimestre de 2001, com o número 4, apresentando com destaque os trabalhos premiados em nosso congresso.
João Baptista N. F. França
Editor
 
Uma alternativa para o conceito de representação inconsciente: a função expressiva e a constituição do sentido. Sentido e significação*
Isaias Melsohn**, São Paulo
O conceito de representação inconsciente de Freud deriva diretamente das noções de percepção e de imaginação inspiradas nos pressupostos epistemológicos positivistas da psicologia empirista do século XIX.
As investigações modernas (Max Scheler, E. Cassirer, Merleau-Ponty) mostraram, porém, que há formas distintas e originais de constituição da percepção e da imaginação, as quais são a expressão de modalidades diversas de construção simbólica, discursivas e não discursivas, que não são cópias, mas órgãos de criação da realidade.
As concepções não discursivas do mito, da arte, do sonho, da neurose e da psicose, resultam de formas originais de percepção expressiva; elas não decorrem da transformação de conteúdos de representação reprimidos, da transformação de registros sensoriais de uma realidade previamente dada.
A função expressiva, núcleo básico da consciência perceptiva, é o fundamento da relação intersubjetiva e, em conseqüência, da situação analítica.
 
Horizontes do mundo da experiência: uma alternativa pós-cartesiana ao inconsciente freudiano
Robert D. Stolorow*, Donna M. Orange**, George E. Atwood***, Los Angeles
Começando com a crítica às hipóteses cartesianas do isolamento da mente que saturaram a visão freudiana de inconsciente, este artigo propõe a idéia da multiplicação dos mundos vivenciais contextualizados e de seus horizontes limitadores como uma alternativa pós-cartesiana ao inconsciente freudiano. Para ilustrar essa contextualização, reexamina-se um exemplo dramático de inconsciência esclarecido durante a análise conduzida por um dos autores, há quase 30 anos, a partir da perspectiva de um sistema intersubjetivo.
 
O sorriso do lagarto1: biotecnologias e afetos
Liana Albernaz de Melo Bastos*, Rio de Janeiro
A autora propõe que a psicanálise se engaje na discussão dos problemas que as novas tecnologias têm apontado. Introduz conceitos trazidos por pensadores de outras áreas do conhecimento no sentido de enriquecer a discussão. Apresenta uma vinheta para, por meio dela, refletir a constituição histórica do corpo, do sujeito e de seus afetos utilizando o conceito de pulsão e considerando a dimensão ética.
 
Afeto, somatização, simbolização e a situação analítica
Plinio Montagna*, São Paulo
A partir de material clínico de paciente em análise com perspectivas de ser submetido à terceira tentativa cirúrgica de transplante de córnea, o autor discute fatores da interação analítica que possivelmente favoreceram o sucesso da intervenção cirúrgica. Tomando essa situação, engendra uma discussão sobre as relações mente-corpo e os passos no caminho da "mentalização" e da simbolização.
 
Um Freud anterior a 1900*
Marialzira Perestrello**, Rio de Janeiro
A autora, baseando-se em dados retirados de biógrafos e da correspondência de Freud (que há anos estuda), descreve as atividades e estudos anteriores a A interpretação dos sonhos e procura demonstrar que desde a juventude Freud dedicou sua vida à procura da verdade. Considera a peculiar constelação familiar do pequeno Schlomo Sigismund como um dos fatores determinantes de sua futura tendência epistemofílica.
Uma idéia rápida é dada sobre os inúmeros trabalhos (desde estudante até 1899) dedicados à anatomia, histologia e fisiologia do sistema nervoso e às pesquisas em zoologia, muitos deles constituindo pequenas descobertas; importantes artigos sobre neurologia e, por fim, os relatos de tratamentos de histéricas, quando Freud soube utilizar para o futuro método analítico, o que aprendera com suas pacientes. A autora encara a descoberta freudiana da importância da fantasia da criança como um "corte epistemológico" e também uma certa coragem de Freud, no "livro dos sonhos", ao examinar-se em um microscópio psicológico.
 
Elaborando perdas
Marina Trench de Oliveira*, Piracicaba
As fantasias depressivas dão origem ao desejo de reparar e restaurar, e tornam-se estímulo para maior desenvolvimento somente à medida que a ansiedade depressiva puder ser tolerada pelo ego e retido o sentido de realidade psíquica.
Hanna Segal (1955)

Este é um relato sobre "relações apaixonadas" e sobre a necessidade, para o desenvolvimento, da capacidade de se elaborar as perdas. É o relato de uma experiência com uma criança pequena, capaz de se relacionar verdadeiramente, e que vivia num ambiente onde isto não podia ser reconhecido como uma necessidade. Ela tinha uma capacidade rara de contato, e assim… "bebia" a análise.
As dificuldades familiares ligadas ao exercício das funções materna e paterna e à elaboração de perdas ficaram expressas e impressas no relacionamento com a criança; surgem na história familiar, na relação com a analista e, devido a necessidade da manutenção dos mitos familiares, terminam por determinar a interrupção do trabalho analítico.
Para esse menino, muito precocemente, cabelo tornou-se algo de importância crucial, identificado numa equação simbólica com um falus onipotente, com uma figura combinada idealizada; muito cedo, surgiram tentativas de incorporação desta figura protetora pela ingestão de cabelos e, posteriormente, tentativas de se travestir. Depois de algum tempo de trabalho, para falar sobre essas angústias e defesas, ele lançou mão dos Contos de Fadas e de histórias infantis; segue-se o acompanhamento de como essa figura surgiu nas sessões e foi se modificando conforme o desenvolvimento mental foi ocorrendo.
 
Revisitando Sófocles: A trilogia tebana sob a lente transgeracional
Ana Rosa Chait Trachtenberg1, Denise Zimpek T. Pereira2, Maria Isabel Perez Mattos3, Vera Dolores Mainieri Chem4 e Vera Maria Homrich Pereira de Mello5, Porto Alegre
Pretendemos expor algumas idéias a respeito das concepções em torno da transgeracionalidade, que se caracteriza por uma história da qual pelo menos uma parte desta não pertence à geração do paciente (Kaës). Utilizaremos a tragédia de Édipo nos tempos presente, passado e futuro. Neste trabalho, recorreremos à descrição que Faimberg faz do fenômeno clínico que ela denominou "'telescopagem' das gerações" - um tipo especial de identificação inconsciente, alienante, que condensa três gerações e que se revela na transferência/contratransferência.
É também nosso objetivo traçar alguns paralelos entre o desfecho neurótico freudiano da conflitiva edípica e o desfecho de cartas marcadas, narcisista desde a perspectiva transgeracional.
Na ótica das relações entre as gerações, diríamos que uma característica das identificações inconscientes é que elas são inicialmente inaudíveis e, assim, permanecem por muito tempo no processo analítico. Da mesma forma, a culpa neurótica não aparece como um indicador, pois não caminhamos no terreno da repressão, já que o desconhecimento da responsabilidade do sujeito não é consecutivo a um ato repressivo; trata-se de um fardo ou "mandato" do qual o filho não consegue se libertar por meio de mecanismos neuróticos. Enriquez destaca que este fenômeno clínico poderá se manifestar numa apresentação bizarra, ininteligível, um "vazio" na memória e uma angústia indizível.
 
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